Poemas


05
dez

datilopoesia

a máquina de escrever

não sabe fazer silêncio:

fala brada grita uiva geme

caminha com salto alto

olhando de soslaio

o escritor fatigado –

tudo quanto não

escreve imprimindo

imprime escrevendo

 

a máquina de escrever

– senhora bailarina –

não cola nem copia

dos dedos escritores

transfere a força

transmuta a forma

transcorre com elegância

num palco branco

irrepetível

 

a máquina de escrever

– musa de quem a usa:

o poeta o escritor o cronista… –

somente repete os silêncios

dos dedos que se afastam

sem impressão digital

 

giuseppe caonetto

04
dez

inauguração

o tempo

cavalga pelos campos e cultiva

liberdades nas crinas do vento

sem pressa para fugas

(os espaços são seus comparsas)

 

o tempo

percorre a vastidão do ínfimo

desnuda o íntimo na transparência

veste-se do instante – traje colossal

 

o tempo

ignora a memória e despreza

a programação da TV

 

o tempo

não comparece à festa de aniversário

e fragmenta a eternidade do beijo

num átimo de zeptosegundo

 

o tempo

se apresenta envelopado como

convite de casamento

parece festa flamenga

no maracanã

com ares de infinitude

 

o tempo

se gasta e a poesia

nutrida de um só desejo

– o agora transvestido de nudez –

transcorre todo o tempo

às mãos trêmulas do poeta:

duas mãos para o registro dos trizes

e dos deslizes das rédeas soltas

 

giuseppe caonetto

03
dez

ciclos

versos são íngremes

as sarjetas – seus percursos –

dão à poesia

poder de escorrimento

 

ritmos lapidados
em rastros inalcançáveis

 

deságuam em bueiros

córregos

rios e mares

 

surrados

retornam ao topo do poema

em forma de tempestade

 

giuseppe caonetto

02
dez

alagamento

quis um poema enxuto

 

fechei-me no meu porão

esta cova de poeira

onde sepulto passos

 

uma fresta raptou meu verso

 

fora de mim a poesia

choveu nos meus pés

 

giuseppe caonetto

01
dez

nascimento

não nasci do ventre

vim do cerne

 

não conheci a queda

 

quando me lançaram ao solo

abracei o chão

como quem ramifica

 

meus pés

− raízes fincadas num leito −

pisam grãos de rocha

 

leite extraído da areia

escorre sob mim:

ergo aos céus

meu fardo de liberdade

 

giuseppe caonetto

29
nov

Amor de porta-retratos

Há quem olhe a fotografia

como quem deseja ver

turvos movimentos

das correntezas de um rio.

 

A mim, que poetizo,

urge calmamente

escutar o que me diz o retrato

nas molduras de sua boca.

 

giuseppe caonetto

Paranavaí, cidade poesia, 11/02/2023

 

Poema publicado em O livro do amor

Doarte Edições, 2023


Newsletter

Inscreva-se para receber as novidades.

(Os dados serão utilizados apenas para envio de conteúdos publicados neste site , nos termos da Lei nº 13.709/2018 (LGPD) e a inscrição poderá ser cancelada a qualquer momento.)

Este site utiliza cookies próprios e de terceiros para analisar sua navegação e oferecer um serviço mais personalizado e publicidade conforme seus interesses.   Termos de Uso/Cookies | Política de Privacidade