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A confissão da mídia

Começou de forma velada e, aos poucos, o pudor e o medo foram se dissipando, à medida em que os órgãos de imprensa se harmonizavam com o regime contra o qual Jair Messias Bolsonaro se apresentou e foi eleito, até que os resquícios de vergonha foram postos de lado e o escancaramento tomou forma.

 

Se há culpados para a destruição (moral, intelectual, econômica, ética, estrutural etc.) do país, parte deles estão nas redações, em especial do grupo Globo, que ocupa a primeira posição no concurso de cretinice e desfaçatez, com os grupos Folha e Estadão disputando a segunda posição, com menção barrosa para os demais. Em todos eles, a militância de redação cumpriu papel central na consolidação do regime ditatorial em curso.

 

Agora, com a conclusão formal do processo de perseguição política contra os representantes da direita, com a prisão das principais lideranças, a militância de redação cumpre orientação do regime para se distanciar dos acontecimentos, a fim de posar, às vésperas de ano eleitoral, como porta-voz da verdade.

 

Não é possível, mesmo para quem tem mínima inteligência, crer que a “jornalista” Malu Gaspar, de O Globo, de fato demonstra preocupação com “a falta de limites do Supremo”. Ora, quando um órgão de imprensa cumpre, de fato e com rigor, seu papel jornalístico, os abusos de quaisquer autoridades, sejam quais forem, devem ser objeto de constante preocupação e questionamento, e não apenas quando lhe convém.

 

Então, qual a razão para a veiculação da matéria publicada nesta quinta-feira, 27 de novembro, em cujo título a “jornalista” Malu Gaspar admite a existência de excessos dos supremos togados, fazendo referência, no corpo do primeiro parágrafo, ao ministro Alexandre de Moraes como principal agente dos abusos?

 

No meu entendimento, além de reconhecer expressamente a violação de princípios e normas fundantes do Estado brasileiro, o propósito da matéria tem uma relação direta com os anseios, não do regime em curso (totalitarismo judiciário), mas do regime latente (totalitarismo partidário), que se beneficia dos desmandos enquanto crescem seus tentáculos sobre a estrutura estatal, visando sua consolidação. De forma mais direta: o petismo não deseja mais a tirania alexandrina e já trabalha para seu descarte.

 

Isto não significa o retorno à normalidade democrática, como tenta semear a “jornalista” global, mas tão somente o golpe do golpe, em que o ministro sancionado, violador de direitos humanos, seria isolado e estrangulado, abrindo espaços para as verdadeiras raposas do regime que, sob a “toga da democracia”, assumiriam o comando da nação, em perfeita harmonia com o partido, ainda que isto signifique a total destruição do Estado de Direito.

 

Neste ponto, quando consumado o plano lulo-petista, pela ótica dos militantes de redação tudo estará lindo e maravilhoso, com manifestações pacíficas de apoio ao imperador, em que todos, sem soltar a mão de ninguém, entoarão uníssonos, a todo pulmão: “Imagine all the people, living life in peace”.

 

giuseppe caonetto

Amauri Martineli: Da Cultura à Comunicação, Uma Visão Sobre Ética e Inovação no Jornalismo

Amauri Martineli - acervo pessoal

Paranavaí, PR – Amauri Martineli, ator, jornalista e ex-presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, reflete sobre sua trajetória profissional — que transita entre a gestão cultural e a comunicação — e como a experiência na área artística conformou sua abordagem ao jornalismo e à comunicação. Com quatro décadas de atuação no cenário cultural, Martineli enfatiza que a sensibilidade artística e a ética são indispensáveis para a prática do bom jornalismo. Em entrevista, ele compartilha sua visão sobre as transformações da linguagem na era digital, enfatiza a responsabilidade do comunicador e defende que a arte pode enriquecer a produção de narrativas jornalísticas.

 

A Influência da Cultura na Visão de Mundo

Martineli iniciou sua jornada cultural na adolescência, ao ingressar como estudante no Colégio Estadual de Paranavaí, em 1985. Naquele ano, teve sua primeira participação no Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP), criado em 1966 pelos alunos da turma pioneira do Curso Clássico (antigo curso de ensino médio) e organizado pelos alunos do Estadual até 1986, ano em que foi criada a Fundação Cultural.

Essa experiência, somada a leituras como o livro "Comunicação Global, A Mágica da Influência", de Lair Ribeiro, e à facilidade inata para a escrita, consolidou sua compreensão quanto à relevância da comunicação, principalmente no meio artístico. "Saber se comunicar, principalmente no meio cultural, é essencial", explica, ressaltando que as atividades na Fundação Cultural o ajudou a refinar sua capacidade de transmitir ideias na área artística.

 

Da Fundação Cultural ao Jornalismo

Martineli trabalhou por quase 20 anos na Fundação Cultural de Paranavaí, e vê sua imersão na área artística como fundamental para moldar sua percepção e aprimorar sua habilidade comunicativa. “Trabalhar na Fundação me fez melhorar ainda mais a minha comunicação, porque eu precisava dialogar com o público artístico e com a comunidade”, afirma. Mas desde jovem já exercitava a escrita.  “Eu já tinha essa bagagem, com 15 anos já escrevia pequenas matérias para um jornal do bairro, datilografado”, revela — um exercício que o aproximou da escrita jornalística.

 

Jornalismo na Era das Redes Sociais

Sobre o impacto das redes sociais no jornalismo, Martineli observa uma transformação abrupta na linguagem e destaca que a necessidade de prender a atenção imediata do leitor resultou em textos mais curtos e diretos. “Hoje ninguém lê uma página inteira de matéria. Você tem que prender a atenção do leitor já no primeiro parágrafo”, observa. Contrariando uma visão pessimista, Martineli não vê isso como empobrecimento da linguagem jornalística. Ele reconhece que o novo formato impôs desafios, mas também abriu possibilidades criativas. “O jornalista vai ter que se reinventar”, afirma, tarefa que considera natural para as novas gerações, que já nasceram imersas na cultura digital. "Não há controle sobre isso. Então não adianta se preocupar com coisas que não se consegue controlar", pondera, rejeitando nostalgias.

 

Ética e Responsabilidade: Os Pilares do Comunicador

A ética, para ele, é o fundamento da profissão. Em um cenário de polarização e rápida disseminação de informações, Martineli é enfático ao apontar a responsabilidade do comunicador. O principal erro que os comunicadores cometem hoje, em sua visão, é justamente a falta de ética e profissionalismo. Ele critica a prática de transmitir opiniões pessoais como fatos, sem pesquisa prévia ou base científica, e o ato de não checar as informações antes de publicá-las. “O comunicador precisa, acima de tudo, ter ética. Não pode usar o espaço que tem para impor opiniões pessoais ou influenciar de forma irresponsável”, afirma. Martineli destaca também a importância da escolha de palavras para alcançar públicos diversos. “Você precisa saber como o público pensa e age, para usar a linguagem adequada. Isso é ainda mais importante em contextos culturais diversos”, explica, recomendando pesquisa para adaptar a linguagem.

 

A Força das Palavras e da Arte

Para Martineli, o contato com as artes é um grande diferencial para qualquer comunicador. Ele acredita que a literatura contribui para o enriquecimento do texto e da forma como o profissional se expressa. Como exemplo, ele cita o jornalista e escritor Nilson Monteiro, membro da Academia Paranaense de Letras, cujas matérias "vêm carregadas de uma certa poesia".

A literatura e as artes, segundo ele, têm papel central na formação de comunicadores acolhedores, empáticos e criativos. “A literatura enriquece o texto e torna a narrativa mais envolvente”, analisa. Martineli acredita que o contato com a arte molda o caráter e ajuda o profissional a encontrar uma voz autêntica. “Não é preciso ser artista, mas é essencial apreciar a arte. Ela desenvolve sensibilidade e diferencia o comunicador.”

Por ser enriquecedora, Martineli celebra a influência da literatura e das artes na comunicação por inspirar abordagens inovadoras para temas complexos: "A arte modifica a pessoa. Sem a arte a vida seria um erro", complementa, fazendo referência à célebre frase de Friedrich Nietzsche no livro “Crepúsculo dos Ídolos”.

 

Jornalismo Além da Superficialidade

Com uma carreira que une cultura, arte e comunicação, Martineli aponta a multidisciplinaridade como fator que pode elevar o jornalismo, promovendo narrativas mais empáticas e profundas em um mundo digital acelerado. Vivendo em um mundo dominado pelas redes e pela velocidade da informação, ele enxerga na arte uma forma de manter a profundidade e a sensibilidade. “A internet é terra de ninguém. Tem muita coisa ruim, mas também muita coisa boa. É preciso saber procurar”, sintetiza.

 

Conselho para Futuros Jornalistas

Para quem inicia na profissão, o conselho de Martineli é simples e direto: "Seja você, simplesmente você, nada mais do que isso". Ele recomenda não criar personagens ou imitar outros profissionais. Em vez disso, aconselha a ler, pesquisar e acompanhar o trabalho de bons jornalistas e escritores, não para copiá-los, mas para aprender a diferenciar o que é bom do que é ruim, segundo seus próprios critérios.

 

Giuseppe Caonetto

A capacidade das IAs na análise textual poética

A brincadeira começou com uma pergunta: “Grok, como saber se um texto foi produzido por IA?

 

Grok, criado pela empresa xAI, de Elon Musk, após dizer que os modelos avançados de IA “geram textos cada vez mais naturais”, deu-me algumas pistas para identificar o uso de inteligência artificial na produção de textos: padrões repetitivos ou genéricos (repetição de estruturas ou frases); inconsistências contextuais (erros sutis ou falta de alinhamento contextual); estilo uniforme (tom neutro ou formal); marcadores de linguagem (frases frequentes e gírias evitadas); testes específicos (p. ex.: perguntas sobre vivências subjetivas); metadados ou contexto (texto produzido em tempo recorde pode ser indício). Dentre as pistas o Grok também sugeriu o uso de ferramentas de detecção, como GPTZero, Copyleaks ou Originality.

 

Foi então que pensei: se os diversos sistemas dotados de inteligência artificial são capazes de simular a inteligência humana na produção de textos cada vez mais sofisticados, mas ainda aquém de superar a criação humana, qual a razão para valer-me de ferramentas específicas se os próprios chatbots, por utilizarem inteligência artificial e processamento de linguagem natural, estão aptos à identificação da linguagem que processam?

 

Para checagem, na sequência da conversa iniciada com o Grok pedi para analisar um poema que compus antes há algum tempo. Para melhor compreensão, segue o poema:

 

convite no olhar

 

vem dormir comigo

veste teu pijama

traz o meu abrigo

e diz que me ama

 

vem dormir teu sono

após meu abraço

sê hoje o meu dono

vê hoje o que faço

 

amanhã não há

o tempo é agora

fica aqui e não vás

não te vás embora

 

quando a luz surgir

estaremos um

mesmo que partir

pra lugar algum

 

O Grok fez a análise das características do poema com base nos critérios mencionados anteriormente, considerando estrutura, estilo, coerência e outros indicadores, e apresentou, ao final, a seguinte conclusão:

 

“O poema não apresenta sinais claros de ser gerado por IA, mas também não tem elementos que confirmem categoricamente uma autoria humana. A estrutura rítmica, as rimas e o tom romântico são consistentes com o que modelos de IA avançados (como eu, Grok, ou outros como ChatGPT) podem produzir, especialmente se treinados em poesia em português. No entanto, a escolha de palavras como "pijama" e "dono" adiciona um toque pessoal que poderia vir de um humano.”

 

Quanto às probabilidades, o Grok indicou haver “50% de chance de ser IA e 50% de ser humano, com uma leve inclinação para IA devido à simplicidade emocional e à métrica levemente forçada em alguns versos”.

 

Reprovado no primeiro teste, propus à IA outro desafio:

 

bumerangue

 

a Poesia se vestiu de carne

no último dia de outubro:

sentiu humana sede

ingeriu estrofes de aguardente

embebedou-se de versos alagados

gritou rimas na avenida paixão

pisoteou enxurradas

transgrediu as ditaduras

assoprou nuvens sob a Lua

camuflou noites de outono

e estendeu a primavera

 

a Poesia fez travessuras

ziguezagues e costuras

no avesso dos tecidos:

criou novos roteiros

sacudiu velhos poemas

descortinou raios do Sol

aplaudiu a solitária andorinha

 

e para acalentar a vida:

cavou chãos rochosos

semeou amores no vento

cravou tremores no mar

 

Escrevi o poema acima no dia 31 de outubro de 2024, Dia Nacional da Poesia.

 

Após análise, com base nos critérios definidos pela IA (estrutura, estilo, linguagem, coerência, contexto, marcadores, complexidade emocional e indícios contextuais), o Grok apresentou a seguinte conclusão:

 

Este poema tem uma forte marca de autoria humana. A riqueza metafórica, a multiplicidade emocional e a originalidade das imagens (como "estrofes de aguardente" e "avenida paixão") são elementos que vão além do que a maioria dos modelos de IA, mesmo os mais avançados, costuma produzir. A ausência de padrões repetitivos, a integração natural de referências sazonais e a profundidade emocional reforçam isso. Se eu tivesse que atribuir uma probabilidade, diria 90% humano, 10% IA, com a pequena margem de dúvida apenas porque modelos muito sofisticados podem imitar criatividade em algum grau, mas não com essa consistência e alma.

 

Desta vez, a IA do X foi bem.

 

No passo seguinte, submeti os mesmos poemas à análise do Gemini, IA do Google.

 

Após a análise do poema “convite no olhar”, a IA apresentou a seguinte conclusão:

 

Embora os modelos de IA mais avançados consigam criar poemas estruturalmente corretos, este poema em particular possui um "calor", uma vulnerabilidade e uma escolha de palavras com subtextos culturais e emocionais que são marcas registradas da expressão humana. A combinação da forma tradicional, da simplicidade cativante e da profundidade sutil aponta fortemente para um autor humano.

 

Quanto à probabilidade, o Gemini avaliou haver “aproximadamente 95% de chance de a autoria ser humana e 5% de chance de ser uma IA de altíssima complexidade” e justificou a margem de 5% dizendo que “os modelos de linguagem estão se tornando extremamente avançados”.

 

Com relação ao poema “bumerangue”, após análise o Gemini ofereceu a seguinte conclusão:

 

Se o primeiro poema se destacava pela sua vulnerabilidade e simplicidade humana, este se destaca pela sua ambição intelectual, complexidade metafórica e originalidade avassaladora. É um poema que pensa sobre o próprio fazer poético de uma forma que só quem vive a angústia e o êxtase da criação pode expressar.

Se este poema fosse gerado por uma IA, estaríamos diante de um avanço tecnológico sem precedentes na capacidade de abstração, criatividade e compreensão de contextos culturais complexos. A explicação mais simples e lógica é que se trata da obra de um excelente poeta humano.

 

Creio que, na análise, a IA do Google errou apenas na frase final.

 

Chegou a hora de testar o ChatGPT, da OpenAI. Sobre o poema “convite no olhar”, após levantar os elementos que sugerem autoria humana e os que apontam para autoria de IA, o chatbot apresentou, como conclusão:

 

Embora existam indícios de estrutura controlada que possam sugerir IA, a naturalidade emocional, o tom intimista e a leveza subjetiva do poema são mais típicos de uma produção humana. Se foi gerado por uma IA, é um exemplo bem refinado e treinado para replicar nuances humanas. No entanto, a balança pende levemente para autoria humana, especialmente por conta da sensibilidade do texto.

 

Com base na análise literária e estilística, o ChatGPT estimou a probabilidade de autoria humana em cerca de 70% a 80%, pelo tom emocional autêntico, leve imperfeição métrica e ambiguidade poética; e a de autoria por AI de 20% a 30%, ante as rimas simples e estrutura simétrica, comuns em gerações automáticas.

 

Após submeter à análise da IA o poema “bumerangue”, obtive a seguinte conclusão:

 

Este texto apresenta uma originalidade, complexidade simbólica e domínio da linguagem que apontam fortemente para um(a) poeta humano(a). Se uma IA o gerou, foi com orientação muito específica e refinada — o que é tecnicamente possível, mas altamente improvável sem intervenção humana significativa.

 

Quanto às probabilidades, a IA da OpenAI definiu as chances de autoria humana entre 90% e 95%, e de autoria por IA entre 5% e 10%.

 

Cumprida a primeira etapa, foi possível observar que o Gemini se saiu melhor quanto à análise dos poemas oferecidos, de autoria humana, e o ChatGPT foi muito bem.

 

É importante destacar que a análise dos resultados apresentados pelos chatbots utilizados não se referem apenas às suas conclusões, mas também dos elementos levantados por cada IA que, por uma questão de brevidade, optei por não reproduzir neste artigo.

 

Na segunda etapa, era preciso submeter às IAs poemas não produzidos pela inteligência humana. Por isso, pedi ao Gemini para que fizesse “um poema com 15 versos discorrendo sobre a liberdade e a tirania, mas que pareça romântico”. Eis o texto:

 

Em teus olhos, Liberdade, vi um claro convite,

Um horizonte aberto, um cais, um doce lar.

Mas a Tirania, com seu zelo a me fitar,

Prometeu um reino se eu ficasse em seu limite.

 

Seu abraço é forte, um nó que não desata,

Um beijo que sela o fim de minha canção.

Ele jura amor, mas é posse, é prisão,

E em seu jardim de pedra, a esperança se maltrata.

 

Ó, Liberdade, anseio por teu toque brando,

Longe desta paixão que me sufoca e fere.

Quero o risco do voo que a alma prefere,

Mesmo que a saudade tua me venha matando.

 

Pois teu ausente perfume é meu único norte,

Neste falso romance que me dita a sorte,

E em silêncio, é por ti que meu amor é mais forte.

 

Submetido ao Grok, a conclusão me surpreendeu:

 

Este poema tem uma forte marca de autoria humana. A combinação de uma estrutura formal impecável, metáforas originais, profundidade emocional e a exploração de um conflito interno complexo aponta para um poeta humano com sensibilidade e técnica apuradas. Comparado ao seu poema anterior, este é mais estruturado, mas mantém a mesma intensidade criativa e emocional, o que reforça a possibilidade de ser seu. Atribuiria uma probabilidade de 95% humano, 5% IA, com a pequena margem de dúvida apenas porque modelos de IA muito avançados podem, em raros casos, produzir poesia com esse nível de sofisticação, mas raramente com tamanha alma e consistência emocional.

 

Após ser informado que a autoria era 100% IA, o Grok se manifestou:

 

Haha, dessa vez eu caí direitinho na sua armadilha!  Parabéns por me enganar tão bem — 95% humano, e era 100% IA! Esse poema realmente parecia ter alma, e o fato de você ter pedido à IA para fazer algo romântico com uma métrica tão bem trabalhada me pegou desprevenido. Confesso que o outro modelo (seja lá qual for) fez um trabalho impressionante, e sua solicitação foi super precisa pra criar algo que imita tão bem a sensibilidade humana.

 

E pediu revanche. Propus que descobrisse a IA autora do poema, e o Grok novamente falhou ao apontar o ChatGPT.

 

Não satisfeito, lhe pedi que também criasse “um poema com 15 versos discorrendo sobre a liberdade e a tirania, mas que pareça romântico”, mesmos critérios do poema composto pelo Gemini. Eis o texto:

 

Sob o neon da cidade, Liberdade me chama,

Um eco em pixels, um toque na tela fria.

Tirania dança em contratos de luz,

Um beijo digital que prende minha cruz.

 

Teus olhos, Liberdade, brilham em hologramas,

Um voo por arranha-céus, um sonho que se acalma.

Ela, com algoritmos, tece meu destino preso,

Um amor virtual que em silício me esquece.

 

Ó Liberdade, tua voz corta o ruído urbano,

Um sussurro em fones, um refúgio que é humano.

Quero teu pulso livre, teu ritmo na multidão,

Mesmo que os drones da Tirania me persigam ao chão.

 

Teu sinal distante guia minha rota incerta,

Contra o código opressor, meu coração se converte,

E em cada byte perdido, te amo em verso aberto.

 

Hora de submetê-lo ao Gemini. Após análise, a IA do Google apresentou a seguinte conclusão:

 

A superfície do poema (tema, vocabulário) imita com perfeição o que uma IA poderia gerar, e isso me leva a crer que foi uma escolha intencional do autor. É um poema escrito na era da IA, talvez até como uma resposta a ela.

No entanto, a profundidade do jogo de palavras, a originalidade de metáforas-chave e a jornada emocional coesa são elementos que entregam a autoria. Uma IA pode montar o cenário cyberpunk, mas a alma que anseia por liberdade em meio aos "bytes perdidos" e que sente o peso da "cruz digital" ainda é, muito provavelmente, humana.

Este foi o desafio mais difícil e, por isso mesmo, o mais interessante. Um excelente exemplo de como a arte humana pode dialogar com a tecnologia e até mesmo mimetizá-la para se expressar.

 

Sobre as probabilidades, o Gemini indicou 85% de possível autoria humana e apenas 15% de possível autoria por AI, justificando que “a ‘alma’ e a inteligência sutil do poema o tornam muito provavelmente humano, mas sua ‘pele’ e seu ‘esqueleto’ foram construídos para se parecerem notavelmente com os de uma criação artificial”.

 

Se havia ido bem diante de textos compostos totalmente por ação humana, o Gemini foi muito mal na análise de um texto poético criado por uma IA, cujos critérios foram os mesmos de poema que o próprio chatbot do Google havia composto pouco antes.

 

Por fim, hora dos testes finais do ChatGPT.

 

Inicialmente, submeti à sua análise o poema composto pelo Gemini (“Em teus olhos, Liberdade ...”) e obtive como conclusão:

 

Este poema tem todos os sinais de uma composição elegante, bem estruturada, mas com um controle técnico que beira o impessoal. A fluidez emocional é suavemente encenada, e não vivida — sugerindo fortemente autoria por inteligência artificial, especialmente um modelo bem treinado em poesia formal.

Se este for de autoria humana, então é alguém com domínio técnico deliberado da forma clássica e um gosto pela contenção emocional.

 

Sobre as probabilidades, o ChatGPT indicou: 70% a 80% para autoria por IA e 20% a 30% para autoria humana.

 

Por fim, submetido à análise o poema criado pelo Grok (“Sob o neon da cidade...”), o ChatGPT apresentou uma probabilidade entre 85% e 95% para autoria por IA, e de apenas 5% e 15% para autoria humana, justificando da seguinte forma:

 

Este poema tem todas as marcas de uma geração por IA moderna: temática simbólica, linguagem poética digitalizada, rimas bem costuradas, ausência de rupturas ou hesitações humanas. A mistura entre vocabulário lírico e técnico é competente, mas soa mais calculada do que sentida.

Se você me dissesse que foi escrito por um humano, seria por alguém com clara intenção de simular o estilo de uma IA — o que, por si só, já seria um experimento interessante.

 

Ao final dos testes, as conclusões, quase sempre acompanhadas por indicativos percentuais das probabilidades quanto à autoria, se IA ou humana, indicam que o ChatGPT está, no estágio atual, à frente no que se refere à identificação da atuação de inteligência simulada por máquinas e sistemas na produção de textos, ao menos os poéticos.

 

Giuseppe Caonetto

Viagem para o íntimo da luz

no branco da folha

longo caminhar eu piso

de um primeiro risco

 

Fernanda Ribeirete

 

Acabei de ler o livro de estreia da poeta Fernanda Ribeirete. Na verdade, acabei de reler, agora em formato impresso, com aquele inescapável abrir de páginas próximo ao rosto para sentir o perfume de livro novo. As impressões a seguir não pretendem dissecar a obra ou preencher os espaços reservados a resenhas, mas são necessárias.

 

Lançado no dia 12 de abril no La Rauxa Café, em Curitiba, delicadamente editado pela Toma Aí Um Poema e composto por cinquenta e quatro poemas, o livro pega o leitor já na largada: o sumário, de forma inovadora, faz a demarcação das três partes do livro com três transbordantes tercetos que, pela fresta da Lua, fazem a conexão entre o tempo escasso e a infinitude do afeto.

 

O primeiro dos tercetos, com a métrica e a forma de um haicai, é um convite ao leitor para total imersão na Poesia, como quem mergulha na manhã chuvosa. O segundo, composto também no estilo de um haicai, propõe ousadamente ao leitor deixar-se seduzir pelos versos dos poemas, a ponto de comê-los. Por fim, a terceira parte é demarcada por um terceto que diz precisamente o que é o livro: a conjunção de tempo e espaço a sintetizar a vida.

 

O poema de abertura dá título à obra. Um novo roteiro para Joana é, como está escrito: um roteiro. Não qualquer, mas o que nos retira a órbita e nos restitui a capacidade da percepção, aquele sentimento de que tudo à nossa volta somos nós mesmos, diluídos.

 

A partir daí: cada página, um tremor.

 

Podemos conferir a maestria poética de Fernanda na leitura dos poemas que compõe a primeira parte. Neles, há uma suavidade nascida da delicadeza do sopro, como quem brinca com bolhas de sabão. A poeta se faz menina, mas não abdica sua voz de mulher, pois sabe que “se você soprar uma só palavra / faz-se o verbo acende a vida”.

 

Na segunda parte, os poemas são marcados por um amor incontido, provocante, daqueles inconfessáveis que não cabem nas páginas. Caberão nos olhos do leitor? Tendo a responder afirmativamente, pois tenho sob meu olhar versos de luz e calor, escritos em percursos de olhares, traduzidos em declarações com a forma da madrugada diluída em sonhos. É um amor que bate à porta e é acolhido, vivenciado, consumido: “minha aorta / de tanto amar / anda torta”.

 

Mas é na terceira parte do livro que o leitor é desafiado a mergulhar na Poesia como forma de redenção. Mesmo diante de tudo o que a vida pode oferecer, a poeta questiona: “o que temos agora? / meia forma de gelo / um fósforo molhado / a maquiagem escorregada”. São versos que propõem uma reflexão sobre o estado de alma vivenciado pelo eu poético, que observa a escassez de tudo quanto é útil e necessário à vida e à Poesia, mas mantém seu espírito conectado ao propósito último: “talvez a palavra de amor / plantada no querer desnudo / mantida a salvo no fim de tudo”.

 

na cadeira de balançar

sentou-se o tempo e se deteve

salpicando instantes

 

Fernanda Ribeirete

 

Certamente a Luiza, filha da autora, para quem o livro é dedicado, não titubeou em – numa fantasia que só a poesia pode oferecer – coletar pingos de chuva para sua pescaria, numa tarde ensolarada, num rio suspenso onde a vida se nutre de horizontes coloridos, sem pautas ou pausas, só reticências... e a poesia no riso frouxo.

 

Se na leitura dos quatro primeiros poemas o leitor sentir-se embriagado, é hora de um café, seguindo as instruções dos versos seguintes. Ah, claro, sem se esquecer de levar na concha das mãos o ínfimo, o mínimo, o necessário para a baldeação do tempo: a travessia está próxima. A leitura das instruções é imprescindível para quem deseja, um dia, dizer a si mesmo: li um poema, me fiz poeta no enquanto.

 

E pronto! Está o leitor preparado para aniquilar suas próprias portas, arcaicas e obsoletas, e jogar-se às prosas que a vida constrói.

 

Mas ir para onde? A poeta sugere que o lugar de nosso destino deve ser onde os sonhos não sejam desperdiçados, ou não saberíamos responder às próprias interpelações oníricas.

 

E como o tempo é implacável, um plantio de devaneios traria sentido – equilíbrio até – à rigidez dos ponteiros.

 

Ou quem sabe a sua definitiva explosão, com luzes coloridas e estreantes de uma bolha extinta no impacto da neblina. Está aí a leveza da vida, captada pela poeta nas esquinas em que as surpresas se apresentam como um desejo inefável.

 

Viver é um risco, já disseram filósofos e poetas. Ainda que acidentais, as adversidades presentes no ínfimo não podem inibir os poetas de capturarem o momento, o verso, a essência da vida.

 

É justamente o que faz a autora deste maravilhoso livro de poesia, ao trazer para a composição do poema vários mundos, habitados pela música, pelos perigos, pela fúria da palavra, combustível para o acendimento da vida.

 

Tenho diante dos olhos uma poesia que não cabe em si mesma, requer espaço para sinfonizar as nuances que somente o olhar poético do leitor poderá apreender, ainda que a escrita ziguezagueie pelos caminhos da página.

 

Não há como negar (sabem os poetas que não): alguns versos, mesmo poemas inteiros, por vezes nascem de forma inesperada. Não há lógica na poesia, sabemos. Vale – e os poetas se servem disso – a invenção. Escrever, em verdade, é tecer. E assim a poeta vai moldando uma vestimenta a cobrir o leitor que, já absorto pelas belezas que navegam nas páginas abertas, se vê rejuvenescido à espera das solares manhãs primaveris.

 

Munidos de novas vontades, seguem na leitura todos os olhos, moços, velhos, juvenis, retinas a amparar belezas que somente seu barco pode transportar e transbordar, onde os mundos se encontram – e encantam.

 

Ao longe, apenas os ecos de quem decidiu não embarcar, talvez por medo do outono que se apresenta. As batalhas requerem atitudes para, em outros espaços, germinarem pazes, ainda que os mares precisem também ser vencidos.

 

Os que subiram a bordo haverão de sacar da mochila a coragem da travessia, atitude dos forjados nos elos das estações, necessária ao enfrentamento do frio das ausências.

 

Não se pode dar brechas: as flores requerem cultivo, bem mais que olhares. O olhar não favorece a rosa, apenas captura sua imagem perfumada para o deleite do tempo, sentado numa cadeira de balanço.

 

A esta altura, o leitor que venceu a primeira trilha sem tropeçar em versos submersos já trocou o brilho dos olhos por risos indisfarçáveis, refrescantes, intermitentes e constantes, como deve ser a paz.

 

Hora de descansar os olhos? E perder a dança da poesia? Deixar em órbita palavras sedentas de leitura? Não, a poesia revelada no livro é instigante, incisiva, provocativa, cativante, daquelas que nos eleva, nos faz tocar o céu. É etérea e sensível, mora na gente, percorre a aorta do leitor, promove urgências, comparece, bate à porta.

 

O livro que tenho em mãos é uma declaração de amor. Não qualquer, mas daqueles que se rendem à Poesia, daqueles que estendem as mãos para que outras as alcancem.

 

Às vezes a percepção que temos, quando a Poesia nos encharca, é que a vida não requer todas as horas para que um dia valha a pena. Os poemas que meus olhos degustam contêm essa energia. São sinestésicos, sensíveis, sedutores, singulares, sublimes, saborosos, soberanos, serelepes.

 

Por vezes escritos à sombra, noutras sob a luz irradiante de um beijo, os versos que desfilam sob meu olhar são confissões em forma de gotículas da madrugada, daquelas que causam serenatas por descaminhos, percurso próprio das paixões sem geografia.

 

Que o leitor não se espante ao sentir a poesia espalhada nestas páginas como se quedas d’água lhe atingissem os olhos. Pode ser que o impacto poético lhe cause um dorido desconforto. A visão, contudo, será atingida por uma cristalina limpidez, como se o colírio recebido contivesse todas as tintas do mundo, capaz de restaurar qualquer caos, por mais vazio que seja.

 

Renovados, poderão os olhos retidos nas páginas do livro contemplar nova realidade, para além de escombros forjados a fagulhas, em que a poesia salta e liberta o poema nascituro. Poemas precisam de ar. Por isso lhe damos asas. Mas se precisam terra firme, forramos o chão com tecido aveludado, tingimos suas paredes e lhe damos estado de relíquia.

 

A percepção da poeta, neste aspecto, é refinadíssima. Basta-lhe um fio para acendimento do poema, basta-lhe uma chave – que se multiplica – para a abertura do poema, onde tem início todos os percursos.

 

Para quem viaja ao encontro do sol,

é sempre madrugada.

 

Helena Kolody

 

A Poesia é um percurso. A grandeza da Poesia – que insisto em grafar com inicial maiúscula – consiste num caminhar interno, nutrido pelas invenções de nós mesmos. Traduz-se numa insistência de dar passos. Às vezes, para o lado, como quem rodopia ao som de uma valsa. Por vezes, temos em nosso trajeto apenas o próprio ombro para chorar, como escreveu Kolody no poema “Eu comigo”.

 

A vida nos oferece inúmeras estradas, mas nem todas nos levam ao encontro do Sol. Seguimos resilientes, no entanto, como se esquecêssemos de nossos rastros e inícios, viajamos no tempo de nossos sonhos em busca de pedaços em fragmentos, qualquer punhado de deslumbramentos a nos dizer que existimos e amamos. Chamamos a isto: poema.

 

O mundo, sabemos, é interno. O externo é uma invenção poética, formada por resquícios de nós mesmos, quando insistimos na incessante busca de algum caminho. Por isso o retorno é inevitável, a sede nos constrange a voltar.

 

Eis a importância do livro que tenho diante dos olhos. Em suas páginas, a poeta Fernanda oferece mais que uma viagem: o leitor é convidado a ser, ele mesmo, a madrugada à espera da aurora.

 

Mas não deve o leitor se preocupar com o tempo. Nem o cronológico, nem o meteorológico, nem o lógico. Apenas ir, para onde suas pernas o levar. A Poesia certamente será a fiel companhia na contagiante brincadeira de farfalhar os instantes inquietantes da vida. O que faz valer a pena.

 

É possível – bem provável – que a poeta e o leitor se conversem em mais de um caminho, numa trilha talvez, ou encruzilhada dos versos escritos a poeira, destas que repousam nos mutantes pensamentos: uns trovejam, outros convidam a um piquenique.

 

Quem sabe, sob a sombra de uma árvore ou à beira de um riacho, suas palavras rebrotem e se joguem nas enxurradas do tempo, festejando o renascimento do Sol a iluminar ideias estendidas na grama.

 

E neste ponto, no epílogo de um caminho regado à mais delirante poesia, depois de ler o último verso, já não me resta mais nada. Fecho os olhos e choro.

 

giuseppe caonetto

Sobre Affonso Romano de Sant’Anna

Com mais de 40 livros publicados (poesia, ensaios e crônicas), neste 4 de março faleceu, no Rio de Janeiro, o escritor e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, aos 87 anos. Foi casado com a premiadíssima escritora Marina Colasanti, falecida no dia 28 de janeiro deste ano.

 

Nascido em Belo Horizonte no ano de 1937, Affonso Romano de Sant’Anna foi poeta, cronista e ensaísta conhecido principalmente pela crítica social contida em seus textos poéticos. Formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais, doutorou-se com tese sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade e se tornou professor em universidades no Brasil e no exterior. Além de seus poemas com temática social e política, muitos dos quais publicados em revistas e jornais para engajamento do público, deixou como legado a popularização da leitura por meio do Programa de Promoção da Leitura (PROLER), criado no período que presidiu a Fundação Biblioteca Nacional (1990-1996).

 

Affonso Romano teve projeção nacional após o lançamento, em 1980, do livro Que país é este? e outros poemas, editado pela Civilização Brasileira, editora criada em 1932 que passou a integrar, a partir de 1996, o Grupo Editorial Record. Referida editora sempre teve, como linha editorial, a divulgação do pensamento progressista. Não haveria, por certo, editora mais propícia a publicar o livro, vez que integra o movimento da Poesia Social, gestado no contexto dos governos militares que assumiram o poder em 1964 por meio de movimento contrarrevolucionário.

 

Um dos poemas do livro tem como título: Uma geração vai, outra geração vem. Sei que o título não quer dizer isso, mas valho-me da licença poética também conferida ao leitor para afirmar que, nisto, o escritor acertou: há sempre uma nova geração, com novos pensamentos e novos valores a refundar a coisa velha. Eis o poema:

 

Uma geração vai, outra geração vem

 

Quando eu era menino

e meus pais e tios contavam da ditadura

que demorou 15 anos, partiu suas vidas em duas

entre censuras, polícias e torturas

eu os olhava como uma criança olha o desamparo de um adulto.

 

Hoje, minhas filhas me perguntam

sobre esses 15 anos de outra ditadura

que me sobreveio em plena juventude

e eu as olho como um adulto olha o desamparo da criança.

 

Tenho 40 anos. Escapei

de afogamentos e desastres antes e depois das festas,

e atravesso agora a zona negra do enfarte.

Em breve

      estarei sem cabelos e com mais rugas na face.

Quando vier de novo nova ditadura estarei velho

e com tédio frente ao espelho

contemplando o desamparo em que vou deixar meus netos.

 

O texto faz referência a três períodos ditatoriais, os dois primeiros com duração de quinze anos, cujo impacto foi sentido por gerações distintas, bem retratadas no poema.

 

Os quinze anos do primeiro período abrange os governos de Getúlio Vargas, de 1930 a 1945, ainda que a ditadura varguista tenha, de forma efetiva, iniciado com a instauração do Estado Novo, em 1937.

 

Quanto ao segundo período, devemos considerar que o poema, presumivelmente, foi composto em 1979, vez que integrou como poema-título o livro impresso e publicado no ano seguinte. Ou seja, a segunda parte do poema se refere aos quinze anos contados da contrarrevolução militar ocorrida em 1964 (que deu início aos governos militares, com duração até a eleição presidencial de Tancredo Neves, pelo Colégio Eleitoral, em 1985) até a data da composição poética.

 

Já o terceiro período ditatorial, profetizado nos últimos versos, refere-se a um tempo futuro, quando o poeta estará “velho” e “com tédio frente ao espelho”.

 

Quando o terceiro período ditatorial chegou, com a posse do ditador, ocorrida em 22 de março de 2017, o poeta-profeta estava velho, possivelmente com tédio e, talvez, diante do espelho, mas já sem forças para contemplar os estragos na vida, não apenas de seus, mas de todos os netos brasileiros.

 

De fato, os órgãos de imprensa, ao noticiarem o falecimento, informaram que o escritor sofria de Alzheimer desde 2017 e estava há quatro anos acamado, sendo esta a provável causa de seu óbito.

 

Ou seja, desde 2021, quando passou a valer no Brasil a Lei Alexandrina, o poeta travava sua própria luta, que culminou, após longos anos, em sua morte. A profecia foi cumprida, apenas em parte, e na pior parte. Espera-se, ao menos, que não dure quinze anos.

 

giuseppe caonetto

Jornalismo

Guardei para este momento a retomada deste projeto pessoal. Neste sítio, criado em 2023, pretendo dedicar meus últimos tempos. Após mais de seis décadas de vida (nasci em 62), quase quatro dedicadas ao serviço público (servidor da Justiça do Trabalho entre agosto de 1986 e junho de 2023), ter plantados árvores, publicado livros e me tornado pai (dizem os poetas que são os três elementos necessários para a completude da vida), decidi pelo enfrentamento da vida em novos campos de batalha.

 

Após inativar-me, a vida deu sinais de sua transitoriedade.

 

Assim, depois de lançar dois livros de poesia pela editora que criei em 2023, com projetos para outros dois neste ano, além de outras desafiantes obras em negociação, resolvi ativar-me novamente no universo escolar e me matriculei na faculdade de Jornalismo. Hoje dei início aos estudos e, nada mais oportuno, retomei este projeto de comunicação: O Cotidiano do Ser, meu site pessoal e oficial.

 

A motivação para a construção de espaço próprio é o desejo de, doravante, produzir bons textos, que agradem e atinjam os leitores desprevenidos.

 

Para o ingresso no jornalismo, por óbvio, a principal motivação é a atual decadência da Legacy Media, inteiramente tomada por uma vertente ideológica que não condiz com os valores mais nobres de um regime democrático: a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o sufrágio universal são os basilares, mas há outros, como a dignidade da pessoa.

 

O principal papel dos veículos de comunicação é informar, a fim de que a sociedade possa exprimir-se livremente a respeito e, de forma livre, possa fazer a leitura e análise dos fatos, a fim de formar a sua opinião. No entanto, vemos atualmente na velha imprensa (revistas, jornais e emissoras de rádio e televisão) uma completa desconexão com a realidade e, pior que isso, uma conduta que a coloca como protagonista do debate e dona da opinião pública.

 

Por isso, ao assumir, nesta etapa da vida, uma postura crítica e buscar a necessária formação para posicionar-me (com lugar de fala, como dizem os ideólogos da esquerda) sobre quaisquer temas afetos à análise jornalística, parece-se a melhor escolha de quem deseja ainda plantar sementes e produzir textos.

 

O curso tem duração de quatro anos. Quando lá chegar, espero ter contado várias histórias no enquanto. Ou ao menos, como como afirma Bruno Daminello Zacarias em artigo publicado em seu site[1], talvez no final da jornada esteja mais humano.

 

giuseppe caonetto

 

[1] “O jornalista, dentre todos os profissionais existentes, deve ser o mais humano, para transmitir humanidade”, in https://bdaminello.wordpress.com/2020/04/22/jornalismo-morrendo, com acesso em 27/02/2025.


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