Mateus 11,2-11
Naquele tempo, 2João estava na prisão. Quando ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns discípulos, 3para lhe perguntarem: “És tu, aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”
4Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: 5os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados. 6Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!”
7Os discípulos de João partiram, e Jesus começou a falar às multidões sobre João: “O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? 8O que fostes ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão nos palácios dos reis. 9Então, o que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta. 10É dele que está escrito: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti’. 11Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”.
A liturgia do terceiro domingo do Advento (ano A) reserva-nos uma reflexão a partir de João Batista, apontado por Jesus como o maior dos profetas. Ainda assim, sendo o maior profeta já enviado por Deus para preparar a instauração do reino de paz e justiça, Jesus nos adverte de que o menor será maior que João, se entrar no Reino dos Céus.
O que isso significa?
Se fizermos uma leitura descontextualizada, não vamos apreender o sentido das palavras ditas por Jesus às multidões após a partida dos discípulos de João. Mas, se atentarmos para o que Jesus disse aos discípulos, enviados para indagar sobre sua pessoa, veremos que ser maior ou menor está diretamente relacionado com o agir. Devolver a visão, ajudar na caminhada, cuidar da saúde, especialmente da audição, faz com que as pessoas tenham vida, em abundância, especialmente aqueles que não frequentam palácios.
É uma mensagem simples e direta, firme, que nos ajuda a compreender nossa missão de cristãos. E as consequências.
O incômodo que a leitura me provoca, no entanto, está na dúvida de João, que envia discípulos para indagar se Jesus era ou não o Messias. Por que a dúvida? Por que desacreditar diante de sinais visíveis? Afinal, Jesus estava abrindo a visão dos cegos, devolvendo aos paralíticos a liberdade de ir e vir, restaurando integralmente os doentes, abrindo os ouvidos dos surdos, fazendo ressurgir a vida diante de todos, especialmente dos pobres, os primeiros a acolher o anúncio messiânico.
Parece-me que João — assim como os demais judeus — aguardava um Messias diferente, com poderes diferentes, com postura diferente, com discurso diferente. Havia uma clara contradição entre a perspectiva e a realidade. A resposta de Jesus a João, por meio de seus discípulos, é direta, neste ponto: João, olhe a realidade! Observe-se que Jesus não diz para que os discípulos retornem a João e lhe digam apenas o que ouviram (ou seja, suas palavras), mas principalmente o que estavam vendo.
Aqui está a chave de leitura, não apenas deste trecho extraído de Mateus, mas de qualquer outro texto do Evangelho e demais livros que compõem velho e novo testamento: a contextualização. Ou seja, sempre que nos deparamos com uma fala, um discurso, uma profecia, uma notícia, temos que confrontá-la com a realidade para depurarmos a verdade.
Importante observar que Jesus, ao pedir aos discípulos de João que lhe relatassem os fatos que eles mesmos viram, e não apenas o que ouviram, retoma a profecia de Isaías que indicou as realizações do Messias: dar vida aos mortos (Is 26,19), restaurar a visão dos cegos, a audição dos surdos, a capacidade de fala dos mudos e a liberdade de movimentos dos paralisados (Is 35,5-6).
Vale observar, neste ponto, que a melhor interpretação bíblica não é a literal, ainda que dela não podemos nunca abdicar totalmente. Podemos lançar mão de outros métodos, como a interpretação teleológica, muito utilizada no ramo jurídico, que foca na finalidade do texto. Neste aspecto, podemos indagar: por que Isaías, ao profetizar a vinda do Messias, o apresenta com inúmeras faces? No texto da primeira leitura deste terceiro domingo do Advento, extraído do livro profético de Isaías, podemos ver que o Messias prometido, apresentado como o próprio Deus, “vem para fazer justiça e dar a recompensa” (Is 35,4). Em outras versões, o texto é traduzido por “vem para vingar” e dar “um prêmio divino”. Em outras traduções pode-se ler: “executar a vingança” e dar “a retribuição de Deus”. De qualquer modo, o Messias é apresentado como o próprio Deus que, sensível às dores de seu povo sofrido, vem em seu socorro. Mas que socorro é este? Que Messias esperar? O vingativo? O justiceiro? Aquele que aplicará a justiça? Ou o benevolente? Talvez o Deus misericordioso, que cura, restaura e liberta? Qual a relação da justiça e a salvação divina? São muitas perguntas para poucos métodos interpretativos. Diria mesmo que são tantas questões para pouco entendimento.
Diante disso, parece bem natural que João, ao tomar conhecimento de que Jesus estava anunciando um novo tempo, com base no amor total e na ação compassiva, e não vingativa, ficou confuso. Como assim, um Deus compassivo? Como assim, um Messias serviçal? Como assim, um Deus humano, que se compadece por também sentir as dores que sentimos? Por isso mesmo, Jesus envia a João, no final da mensagem dita aos discípulos, uma advertência: “bem-aventurado aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo”.
A verdade é que o mundo ficou escandalizado com os feitos de Jesus. Também com suas palavras, especialmente aquelas que devolviam ao povo a capacidade de ver, ouvir, falar, pensar por si mesmo e questionar, mas sobretudo com as suas ações, pelas quais era possível entender que a mentira se esconde em discursos vazios, enquanto a verdade se revela nos fatos condizentes com o anúncio dos valores que embasam a vida.
O mundo, neste sentido, não mudou. Talvez porque ainda temos as mesmas dúvidas de João. O fato é que ainda nos escandalizamos com a verdade e, para nos sentirmos bem, normalizamos as mentiras, os discursos desconexos, sem substância, que nos fazem manter os olhos fechados diante da injustiça, tapar os ouvidos para os gemidos de socorro, trancar as palavras em nosso silêncio, sepultar nossas ações em qualquer cômodo e fingir virtudes quando somos confrontados com a realidade.
giuseppe caonetto
Mateus 3,1-12
1Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia: 2"Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo". 3João foi anunciado pelo profeta Isaías, que disse: "Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!" 4João usava uma roupa feita de pelos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins; comia gafanhotos e mel do campo. 5Os moradores de Jerusalém, de toda a Judéia e de todos os lugares em volta do rio Jordão vinham ao encontro de João. 6Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 7Quando viu muitos fariseus e saduceus vindo para o batismo, João disse-lhes: "Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? 8Produzi frutos que provem a vossa conversão. 9Não penseis que basta dizer: 'Abraão é nosso pai', porque eu vos digo: até mesmo destas pedras Deus pode fazer nascer filhos de Abraão. 10O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo. 11Eu vos batizo com água para a conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. 12Ele está com a pá na mão; ele vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará num fogo que não se apaga".
O texto escolhido pela Igreja para celebrar o segundo domingo do Advento é altamente profético, centrado na voz daquele que grita no deserto!
Quando pensamos na profecia de Isaías materializada na voz desértica de João, para a total compreensão da mensagem de salvação oferecida pelo Criador à humanidade precisamos assimilar, de forma profunda, o sentido do deserto, sob pena de nunca sermos voz alguma.
Sim, porque a conversão prenunciada por João impõe a quem se deixa batizar — isto é, aceita o seguimento de Jesus Cristo — uma condição indispensável: ser a voz que grita no deserto. Não pense que a profecia de Isaías se dirige apenas ao Batista, como precursor. Seria muita ingenuidade nossa acreditar que a missão profética foi confiada apenas a ele que, pelo cumprimento fiel, teve como recompensa, nesta vida, a oferta de sua cabeça entregue, por ordem de Herodes, numa bandeja à filha de Herodíades (Mt, 14, 6-11).
João recebeu como missão pregar a conversão no deserto da Judéia para que a sua voz ressoe no deserto da humanidade inteira e, de forma muito particular, no deserto que carregamos em nós e do qual buscamos fugir, ao sentir que também temos uma cabeça a ser oferecida. Mas quem pode fugir da ira que vai chegar? — questiona João a fariseus e saduceus que o procuravam, provavelmente por pura curiosidade, jamais por uma busca verdadeira do caminho oferecido.
O que pretendo aqui apresentar, como reflexão, passa pelo contexto do deserto, que muito provavelmente os fariseus e saduceus, aos quais João denomina agressivamente de raça de víboras, sequer conheciam. Sim, eles sabiam da existência do deserto, provavelmente já o haviam percorrido, mas não sabiam nada sobre a sua essência, no contexto da verdadeira mudança de vida preconizada pelo profeta precursor.
A escolha do deserto não é por acaso. João o conhecia porque era parte dele, vivia nele, se alimentava dele. O deserto representa para João o habitat natural de quem, de fato, gasta a vida como desejado por Deus ao criá-la. No deserto não há discursos, não há narrativas, não há mentiras, apenas o silêncio de Deus e o grito de quem o anuncia. É lá que João se manifesta, com a verdade que Deus lhe transmite como missão, sem ruídos de qualquer natureza, sejam aqueles produzidos por discussões teológicas ou por intrigas políticas. Lá, no deserto, a Poesia é a soma do ínfimo, e João a escuta, declama, recita, canta, grita! A Poesia de João é a rebeldia de um Deus que ama!
João entende o deserto, ele é o próprio deserto, rebelde em si, que rompe com as instituições falhas e falidas que a humanidade cria para se proteger, mas nas quais se aprisiona.
Aprendamos com João, que as instituições — todas elas, inclusive as religiosas — devem servir à liberdade e à verdadeira justiça e, como essência, devem carregar em si o deserto da Judéia, lugar de privação e de despojamento, propício para a busca de um novo caminho, marcado por um propósito (mudança de vida), um gesto (adesão ao projeto divino) e uma atitude (o compromisso simbolizado pelo batismo).
giuseppe caonetto
Mateus 24,37-44
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: 37“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. 38Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. 39E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. 40Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. 41Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. 42Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”.
É intrigante o discurso de Jesus, dirigido a seus seguidores, a propósito da profética vinda do Filho do Homem. Neste início de novo ano litúrgico (ano A, de acordo com a liturgia católica), a celebração do primeiro domingo do Advento nos reserva uma reflexão importantíssima. Estamos caminhando para o final do ano civil e, após a época natalina, sempre marcada por esperanças, estaremos em ano eleitoral, sempre marcado por um dilúvio de narrativas.
Para quem estuda a história da humanidade, não se surpreende, ainda que se angustie e se indigne com as ondas torrenciais geradas no ambiente político, seja no Brasil, na américa espanhola, nos Estados Unidos da América, qualquer nação da Europa ou nos países asiáticos e africanos: onde está o homem, está também o conflito.
Na seara brasileira, a mentira encontra campo fértil para se alastrar e tomar conta dos cultivos, sufocando as plantações de trigo. A razão pela qual o logro ganha forma e ocupa espaços é também intrigante.
No momento em que faço esta reflexão, a partir da liturgia do primeiro domingo do Advento, os semeadores de cizânia celebram a decisão de líder tirânico travestido de magistrado que, corrompendo normas jurídicas, determina o encarceramento definitivo do maior líder político desta nação, para início de cumprimento da injusta pena que lhe foi atribuída por fatos inventados no curso de um processo absolutamente nulo, forjado em colaboração com os bichinhos amestrados que o ladeiam.
Conforme o texto do evangelho, quando o dilúvio veio e arrastou a todos, as pessoas que “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento [...] nada perceberam”.
E este é o ponto. O povo, quando permite que a corrupção seja a regra, abre caminho para a tirania e, uma vez estabelecido o sistema tirânico, fica sujeito a desconhecidas e imprevisíveis consequências, diluvianas, que podem arrastar a todos.
E como fizemos isto? Como permitimos que nossa nação tivesse este lamentável destino? Pela simples falta de vigilância. Não apenas, há muitos outros elementos a considerar. Contudo, é na aparente estabilidade que se estendem e se escondem os tentáculos da tirania que, de forma insidiosa, se estabelece e se enraíza. A sonolência do povo é que permite ao ladrão vir, já não mais à noite, mas a qualquer hora. É sempre bom lembrar que a sentença condenatória que levou à prisão o líder do maior esquema de corrupção da história brasileira foi anulada para que aquele homem, comprovadamente corrupto, voltasse à cena dos crimes, aqueles descritos nas provas processuais produzidas — confirmadas por dezenas de outras provas, dentre as quais dezenas de testemunhos e delações, inclusive com vultosas devoluções de recursos desviados — e os que agora são cometidos, como no caso dos desvios bilionários com origem em desfalques em contas de aposentadoria (sim, de valores destinados à subsistência de pessoas idosas e pobres!), que levou à prisão o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto.
Este é o momento mais difícil da história da nação brasileira, dividida, em conflito e entregue a um sistema corroído que, como no tempo de Noé, avança sobre as liberdades fundamentais, com decisões judiciais e políticas, preparando o terreno para um dilúvio de instabilidade democrática, enquanto muitos permanecem distraídos, em inabalável rotina. Essa normalidade, sabemos, é a vestimenta da complacência. O relato bíblico, lembrado por Jesus a seus seguidores, não nos dá informações precisas a respeito dos avisos emitidos quanto aos acontecimentos por vir. Mas, pela letargia do povo, descrita com precisão (comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento), seguramente podemos afirmar que os contemporâneos de Noé ignoravam os avisos.
No caso da sociedade brasileira, grande parte está imersa em redes sociais e entretenimento, não se dando conta dos sinais de erosão institucional. Os debates públicos, especialmente sobre projetos de interesse da nação, quase todos são tratados nas redações com base multifuncional, pó facial, blush, iluminador, sombra, máscara e batom, dentre outros inutensílios que compõem o kit de maquiagem jornalística, e empacotados com papéis multicoloridos e lacinhos de fita vermelha, recebidos pelo público como parte da sua refeição diária, garantida pelo governo.
Aqui reside o cerne da tirania. O poder tirânico somente pode ser exercido se: a) o povo permitir, seja por meio da outorga coletiva ou pela submissão silenciosa; b) as instituições que representam o povo estiverem cooptadas e, por isso, sem instrumentos para fazerem valer a vontade do povo que as conceberam; c) as forças de defesa do próprio povo, armadas, lhe derem as costas.
Pelos acontecimentos dos últimos anos, vemos o povo dividido em algumas frentes: a que confere outorga à tirania que se estabelece; a que trava sua luta desesperada contra o poder tirânico; e a que come e bebe enquanto os tentáculos se alongam. Esta última é a maior, em tamanho e culpa.
A tirania, como a que está se consolidando no país, não irrompe de golpe (na forma tradicionalmente conhecida, com a tomada repentina do poder), mas por tentáculos: censura em redes, intervenção em políticas públicas, reinterpretação extensiva das normas constitucionais e legais, usurpação da competência legislativa, dentre outros inúmeros abusos.
Se olharmos para o nosso tempo como se fosse o tempo de Noé, ao vermos o coração do Criador sangrando de dor, poderíamos fazer coro com o escrito bíblico para afirmar que “a maldade dos homens é grande na terra, e todos os pensamentos de seu coração estão continuamente voltados para o mal” (Gn, 6,5) e que “a terra está corrompida” (Gn 6,12).
O Brasil de 2025 é o tempo de Noé: distraído e à beira do abismo.
giuseppe caonetto
Mateus 24,37-44
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: 37“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. 38Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. 39E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. 40Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. 41Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. 42Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”.
Estamos diante de um dos mais intrigantes discursos de Jesus aos seus seguidores. Não é preciso dizer que os apóstolos não entenderam muito bem o que lhes foi dito. Menos ainda os demais discípulos. E depois de dois mil anos ainda buscamos a compreensão dessas palavras.
Afinal, qual a razão para Jesus, aqui autoproclamado Filho do Homem, comparar-se a um dilúvio e a um ladrão?
Sabemos que Jesus não é um dilúvio. Ele mesmo se apresenta, em dado momento, como a fonte de água viva (Jo, 4,10). Ora, há claramente um conflito entre esse Jesus que dá de si mesmo como água cristalina, que mata a nossa sede, com este Jesus, Filho do Homem, que se apresenta como dilúvio, que a todos arrasta.
Não podemos nos esquecer que os próprios evangelistas narram certos conflitos naqueles que se aproximam de Jesus ou dele ouviram falar, quando perguntados sobre sua pessoa. Exemplo disso é o que disseram seus discípulos ao serem por Jesus questionados a respeito do que dizem os habitantes de Cesareia de Filipe a seu respeito. «Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas» (Mt 16,13-14), responderam, revelando o tamanho da confusão sobre quem é Jesus, o Filho do Homem.
Aqui há um conflito ainda mais relevante: pelas respostas, há clara evidência de que o povo de Cesareia de Filipe acredita na doutrina reencarnacionista, ao passo que Jesus, ao se apresentar como o Filho do Homem, revela-se como o Filho do Deus que se encarna. O conflito, neste caso, é desfeito pela pronta resposta de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!» (Mt 16,16). Ou seja, o Filho do Deus que se encarna, do Deus que se faz Homem, do Deus que se revela para o Homem como a fonte de sua vida.
Voltando ao tema, é preciso nos indagar sobre a possibilidade desta água viva, que é Jesus, transmutar-se em dilúvio, que tudo arrasta. São imagens conflitantes de um Deus que se apresenta em Jesus em momentos distintos, e que precisam, em nosso espírito, conciliarem-se. É, de fato, de difícil compreensão como pode, um Deus apaixonado, revelar-se em Jesus como uma tormenta, aniquiladora, devastadora, capaz de extirpar sua própria criação. Contudo, entendamos que este Deus, que é puro Amor, permitiu o sacrifício de seu próprio Filho, como sinal concreto de amor a quem assume, nesta vida, ser também fonte de água viva.
Partindo desta constatação, é possível observar que, na verdade, o dilúvio a que se refere Jesus não chega com a vinda do Filho do Homem. Ele já existe, e está em cada um de nós. Todos temos nossos dilúvios. E eles existem em nós por estarmos, mesmo com sede, bebendo de fontes que não nos sacia.
Quanto à comparação com o ladrão, sabemos que Jesus não rouba nem o nosso coração. Ele sempre espera de nós a gratuidade, e portas abertas.
Como, então, compreender que se deva estar vigilante para algo que é bom, que é desejável? Não deveríamos estar com as portas e janelas de nosso coração escancaradas, esperando por este momento, do encontro definitivo com o coração de Jesus?
Mas Jesus faz uma advertência e nos quer vigilantes, como o dono da casa que espera pelo ladrão, se dele soubesse. A advertência, melhor analisando, refere-se a tudo o que pode roubar de nós este momento: o encontro com Deus, o Deus apaixonado, o Deus que é fonte de água viva, o Deus que nos oferece cotidianamente seu coração como morada.
Há quem, diante do texto deste primeiro domingo do Advento, busque cercar-se de proteção, de armaduras, de todo tipo de resistência ao dilúvio, e ao ladrão.
Longe de pretender ensinar, eu quero apenas aprender a abrir as portas e janelas do meu coração para Aquele que jorra, que transborda e inunda com seu amor quem a Ele oferece a sua sede.
giuseppe caonetto
É inegável que a língua portuguesa é uma das mais ricas do mundo e fascina tanto os falantes nativos, principalmente os lusitanos, quanto aqueles que se interessam pelo idioma, dada a sua versatilidade e expressividade.
Atualmente o português se posiciona entre as dez línguas mais faladas no mundo, com quase 300 milhões de falantes nativos, sendo o idioma oficial em nove países: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Timor-Leste, além do território de Macau.
Um dos aspectos mais importantes a serem observados na evolução da língua portuguesa, além de ser o berço de uma grandiosa literatura e uma vivacidade musical contagiante, é a sua generosa receptividade de expressões utilizadas em outras línguas, o que promove inclusão cultural e a torna ainda mais rica.
Contudo, nem sempre a evolução da língua é sinônimo de enriquecimento verbal, semântico ou fonético. Há vícios linguísticos que representam empobrecimento da comunicação, resultando em imprecisão, redundância, incompreensão, ambiguidade, previsibilidade, artificialidade e falta de clareza, dentre outras consequências.
O pleonasmo vicioso (uso de palavras redundantes), a tautologia (repetição de uma mesma ideia com palavras ou expressões sinônimas) e a cacofonia (junção de sons de palavras vizinhas) são exemplos de vícios linguísticos comuns que afetam a precisão e a elegância da comunicação. Alguns fenômenos linguísticos, no entanto, podem ser utilizados como recurso estilístico, o que não acontece em outras situações, a exemplo do uso inadequado, excessivo e desnecessário do gerúndio (forma verbal terminada em -ndo) nas construções verbais.
O gerundismo é fenômeno linguístico comum e frequente na comunicação, inclusive em contextos formais como telemarketing, atendimento a clientes, discursos corporativos, dentre outras situações nas quais o uso de múltiplos verbos para ações futuras pode gerar alongamento frasal desnecessário. Essa construção compromete a comunicação e transmite uma sensação de adiamento, além de incerteza. Uma das explicações que aponta os serviços de atendimento como campo fértil para o surgimento do gerundismo está nas orientações corporativas repassadas aos atendentes quanto ao uso de expressões mais suaves e menos diretas, a fim de evitar que sua fala pareça rude ou brusca e, assim, afaste o cliente por ausência de deferência ou gentileza. Mas pode ser que as pessoas, por si, optaram por essa forma de se expressar por uma questão pragmática, ou seja, para suavizar o peso de uma negação ou da afirmação, a depender do contexto em que a mensagem foi transmitida. Por exemplo, a negação fica mais leve se, em vez de dizer “não participarei” ou “não poderei participar”, disser “não vou poder estar participando”. No caso de mensagem afirmativa, usar a expressão “vou poder estar atendendo na próxima semana” em vez de “posso atender na próxima semana” ameniza o compromisso que esta última denota.
Não se pode ignorar a utilidade do gerúndio, forma verbal regular, na comunicação, a exemplo da frase “estou lendo um livro”, que revela a ação de leitura em andamento. O uso do gerúndio também é correto quando indica uma ação simultânea a outra, como na frase “estou estudando enquanto ouço música”. Porém, o uso do gerúndio torna-se vício de linguagem se empregado em expressões com objetivo de indicar uma ação futura, culminando na transformação de frases simples em redundantes, especialmente pelo uso de perífrases, o que torna a comunicação menos direta em razão da prolixidade.
Embora o gerundismo não seja erro gramatical, a crítica à sua utilização na comunicação é pertinente, pois o uso de verbos desnecessários prejudica a clareza e a concisão, diluindo o impacto da mensagem. O gerundismo típico se estrutura por meio de uma locução verbal construída com três verbos que, quase sempre, envolve os verbos “ir” e “estar”, acrescido do gerúndio do verbo que expressa a ideia principal. Mas o uso do verbo “poder” também é comum no gerundismo. Exemplos: “vamos estar enviando o documento”; “vou estar transferindo sua ligação, a senhora vai estar aguardando na linha?”; “ele vai estar realizando o pagamento amanhã”; “podemos estar agendando para quinta-feira”. Mas é possível que o verbo no gerúndio não expresse a ideia principal, mas seja apenas um auxiliar, o que exige o acréscimo de mais um verbo, este no infinitivo. Assim, a frase “vamos estar enviando o documento” poderia ser “vamos estar tentando enviar o documento”, o que agrava ainda mais a comunicação e gera uma sensação de imprecisão linguística, além de prejudicar a oratória de quem, ao se comunicar, emprega expressões identificadas como gerundismo.
Vale ressaltar, embora este artigo não se destine à identificação das causas, que alguns estudos apontam a influência da língua inglesa para o alastramento do gerundismo na língua portuguesa, em especial pela literalidade de algumas traduções, a exemplo da expressão “I am going to be doing” que, ao pé da letra, se traduz por “vou estar fazendo”, com três verbos. Na minha percepção, o problema vai além dessa possível influência, se existente. Penso que nenhum tradutor, se qualificado para o trabalho, verteria a expressão inglesa para “vou estar indo fazer”, com quatro verbos, tão comum de se ouvir em vídeos publicados nas redes sociais. A influência do inglês, comum em contextos de atendimento bilíngue, explica em parte o gerundismo, embora traduções literais não justifiquem construções mais complexas, com múltiplos verbos, o que me levou a escrever sobre o tema.
O fato motivador ocorreu durante uma videoaula, em que o professor, de curso universitário, disse a pérola: “depois da faculdade, vocês vão poder estar indo fazer mestrado”, uma expressão composta por cinco verbos, quando bastaria dizer que “depois da faculdade, vocês poderão fazer [o curso de] mestrado”. Os verbos adicionais (“vão”, “estar” e “indo”) reforçam a redundância e sugerem hesitação, comprometendo a credibilidade do discurso. Uma construção com tantos verbos, na forma observada, pode gerar incerteza e falta de compromisso com a ação, capazes de confundir o ouvinte.
Apesar de ser um dos vícios de linguagem mais combatidos, com inúmeros artigos e vídeos na Internet abordando o assunto, há algum tempo tenho notado (ou venho notando, para exemplificar um correto uso do gerúndio) um crescimento no número de ocorrências desse desvio linguístico, com alastramento para diversas áreas, inclusive de influenciadores digitais, o que me leva a concluir que a língua portuguesa sofre um processo impactante que torna a comunicação menos fluida. Se considerarmos que há tantos outros vícios, é possível inferir que a sociedade brasileira tem decrescido no quesito da expressão verbal.
Há claro reflexo desse empobrecimento linguístico nos dados referentes aos hábitos de leitura. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em novembro de 2024 e realizada pelo Instituto Pró-Livro, 53% dos brasileiros não leem livros, sendo a primeira vez que a maioria da população se declara não-leitores, superando o percentual levantado nas pesquisas anteriores (2007, 2011, 2015 e 2019). Os dados também revelam queda na média anual de livros lidos, com 3,96 livros por pessoa, o menor índice da série histórica.
A pesquisa corrobora a percepção de que o crescimento dos vícios de linguagem na comunicação se deve, principalmente, pela falta de leitura. Sabemos que estudar a norma culta e conhecer as regras gramaticais ajudam a corrigir erros e, assim, evitar vícios de linguagem, tornando a comunicação mais clara, eficaz e elegante, tanto na fala quanto na escrita. Não podemos negar que a exposição à língua padrão ajuda na fixação do uso correto de palavras e das construções linguísticas. No entanto, acreditamos que o melhor caminho para sanar as deficiências apontadas acima é utilizar a língua de forma inteligente e criativa, o que exige não apenas exercícios de escrita e reescrita, leituras dirigidas, cursos de oratória ou oficinas de redação elaboradas para o uso correto da língua, mas também a oferta de cursos de escrita criativa nas escolas e treinamentos corporativos focados em comunicação direta, voltados à valorização do idioma e na conformação cultural com a linguagem padrão, formal ou literária.
Por outro lado, não se pode ignorar que a língua portuguesa, a exemplo de outras e por sua riqueza semântica, é propícia às adaptações e incorporações de novos termos e expressões, o que lhe confere vivacidade e um estado de constante mudança. Neste ponto, vale destacar a sua adaptabilidade, no contexto digital, a novas formas de expressão e palavras que surgem cotidianamente, advindas da acerelada evolução tecnológica, da alta conectividade mundial e da comunicação digital a promover a aproximação cultural e linguística dos diversos povos.
Há recentes estudos que, em determinadas circunstâncias e em conformidade contextual, apontam adequação e conveniência do uso estratégico do gerundismo visando, por exemplo, a veiculação de uma imagem cordial num ambiente de negociação comercial. Com isso, os autores buscam combater suposto preconceito linguístico de quem vê no gerundismo um vício a ser evitado. É o caso de COMPATO JUNIOR (2022) que, em artigo publicado na Revista VIDA, da Universidade Brasil, afirma não ser “exatamente o que se pode chamar de ‘erro’ e, dependendo das circunstâncias de uso, talvez mesmo nem um vício linguístico”[1]. Seus argumentos estão na direção de que não há desrespeito, na construção, da regra canônica da sintaxe, e que cumpre sua funcionalidade no sentido de expressar uma ação em progresso com mais polidez, apenas mais demorada do que o enunciado dito de forma direta, sem uso de gerúndio.
No entanto, a análise do citado autor se limita à construção do gerundismo clássico (“ir” e “estar” + gerúndio) e, conforme demonstrado neste artigo opinativo, há casos em que a expressão é construída com cinco verbos, configurando, a meu ver, uso inadequado do gerúndio, vício de linguagem que requer ações concretas, como oficinas de escrita criativa, grupos de leitura, cursos e treinamentos visando uma comunicação mais clara e a preservação das riquezas da língua portuguesa.
Giuseppe Caonetto
[1] CAMPATO JÚNIOR, J. A. Língua e Ensino de Língua: Entre o Senso Comum e a Ciência. Revista VIDA: Ciências Humanas (VICH), São Paulo, SP, v. 1, n. 1, p. 21–29, 2022. DOI: 10.63021/issn.2965-8853.v1n1a2022.11.
Disponível em: https://periodicos.universidadebrasil.edu.br/index.php/vich/article/view/11. Acesso em: 17 jul. 2025.
Os números da pesquisa divulgada pelo Datafolha no último dia do ano de 2024 mostram que 61% dos brasileiros veem a economia brasileira fora dos trilhos, e apenas 32% dos entrevistados enxergam acertos na trajetória econômica.
Realizada nos dias 12 e 13 de dezembro de 2024, a pesquisa apresenta dados fornecidos por 2.002 entrevistados em 113 municípios, com nível de confiança de 95% e 2 pontos percentuais na margem de erro.
Dos resultados apresentados, destacam-se: a desaprovação do cenário econômico mais acentuada pela população jovem, de 71%; a opinião dos portadores de diploma universitário, com 68% dos entrevistados discordando da condução econômica do país.
Os destaques têm uma razão de ser: no primeiro caso, a expressiva desaprovação dos entrevistados na faixa etária de 16 a 24 anos contrasta com os números da eleição de 2022, haja vista que aproximadamente 57% dessa fatia do eleitorado destinou seu voto no candidato petista, conforme pesquisa divulgada pelo Poder360[1]; no segundo, trata-se de uma parcela da população que está no mercado de trabalho em busca de construir sua vida financeira ou melhorá-la.
Relativamente à população jovem, importante destacar que, nesta faixa etária, ainda não há na ampla maioria uma preocupação destacada quanto os rumos da economia, seja porque os jovens ainda vivem sob o amparo da família, ou pela razão de que, por não haver grandes responsabilidades, o pouco lhes parece suficiente. Com o tempo, sua visão de mundo certamente será impactada pelos desafios que lhe serão apresentados nas diversas áreas, mas especialmente no campo profissional.
Esta talvez seja a razão pelo meu otimismo quanto ao futuro da nação. A pesquisa mostra que, mesmo que a maioria dos entrevistados não tenham assumido grandes responsabilidades, seja na vida familiar ou na profissional, a desaprovação da política econômica do atual governo, de 71%, mostra que a juventude está mais atenta à realidade à sua volta e sem medo de mudanças. É evidente que a maioria dos jovens entrevistados que hoje se posiciona contrariamente à política econômica ou demonstra preocupação com os rumos da economia lhe deram crédito nas urnas.
Quanto aos portadores de diploma universitário, que provavelmente abrange uma pequena parcela dos jovens de até 24 anos, a desaprovação de 68% quanto à condução econômica do país sinaliza para uma provável convergência à direita, explicada pela evidente frustração quanto às prometidas facilidades que a esquerda costuma propagandear em campanhas políticas, mas que não se materializam quando está no exercício das funções públicas.
Aguardemos as novas pesquisas a serem realizadas neste ano, a fim de observarmos se este cenário de mudanças será validado.
De qualquer modo, o ano de 2025 tem um começo que, num cenário de desesperança, aponta para uma provável convergência em 2026, o que é animador.
giuseppe caonetto
[1] https://www.poder360.com.br/poder-economia/datafolha-economia-esta-no-caminho-errado-para-61-dos-brasileiros/
Inscreva-se para receber as novidades.
(Os dados serão utilizados apenas para envio de conteúdos publicados neste site , nos termos da Lei nº 13.709/2018 (LGPD) e a inscrição poderá ser cancelada a qualquer momento.)