Opinião



O Brasil está tinindo

Há muitos anos eu convivo com um problema que afeta milhões de pessoas: o zumbido, também denominado tinido (tinnitus, que deriva da palavra latina tinnire) ou, na literatura médica, acufeno. Definido como uma ilusão auditiva, é uma sensação sonora não estimulada por fonte externa. Estima-se que entre quinze a vinte por cento da população mundial desenvolve algum tipo de zumbido. Estudos mais recentes apontam que 740 milhões de pessoas no mundo são diagnosticadas com zumbido, e no Brasil aproximadamente 28 milhões são portadoras de algum tipo de patologia causadora de acufeno.

 

As causas do zumbido são inúmeras, dentre as quais o estresse emocional, tão presente no cotidiano dos brasileiros. Mas a principal causa do zumbido, capaz de criar “sons que não existem”, é a perda auditiva, que priva as pessoas de ouvir sons importantes do dia a dia.

 

Eu não sei a causa de meu zumbido, mas creio que o tinido que “ouço” decorra da perda de audição. Estima-se que esta seja a causa em noventa por cento dos casos. Quando o descobri, após passar horas percorrendo os cômodos da casa para encontrar o grilo estridente, fui ao médico. Após exames, foi-me dito que estava com uma pequena diminuição na audição. Depois de quase vinte anos, creio que esta perda auditiva tenha se acentuado. Há alguns meses, por exemplo, durante tratamento médico, ao utilizar o termômetro não conseguia ouvir o apito que o aparelho emite para sinalizar que a medição está completa.

 

Ouvir é um dom maravilhoso, e a sensação de estar perdendo a audição não é boa, obviamente. Nas últimas semanas, em decorrência de alto estresse motivado pela inacreditável (e inauditável) proclamação do resultado eleitoral, o tinido que me atormenta aumentou muito, digamos que na proporção inversa à credibilidade dos togados supremos. Um incômodo a mais neste período turbulento da vida nacional.

 

Isto me fez refletir a respeito da deficiência auditiva, não de quem sofre com zumbido, como no meu caso, mas de quem não pode ouvir um “eu te amo” da namorada, ou sua mãe pronunciando o seu nome, ou mesmo uma bronca do pai, a risada de seu amigo, o grito de gol de seu time. Não consigo mensurar o que é, ou a sensação que causa em quem, observando o movimento dos lábios, vê que todos à sua volta se comunicam por sons e precisa aguardar alguém traduzir por sinais o que não consegue compreender apenas pela leitura labial. Estou aqui especulando um sentimento que não conheço, e talvez nunca saiba, ainda que a sensação de não ouvir o sinal sonoro do termômetro tenha me deixado angustiado.

 

Mas é possível refletir um pouco mais. Há incômodos piores. É possível observar que a perda da audição tem uma variante pandêmica que atinge muito mais que os 28 milhões de pessoas com “abelhinhas no ouvido”. Alguns convivem com cigarras. Trata-se de uma variante destruidora, pois aniquila não apenas a capacidade de ouvir, mas principalmente de pensar de forma racional e lógica. Pior que isso, trata-se de uma variante pandêmica com a capacidade de atingir a visão e tornar o portador da anomalia em alguém com relevante diminuição de sua capacidade de enxergar a realidade, o que o faz adepto do “bonnerismo”, corrente jornalística brasileira definida como imparcial na medida do alcance de sua parcialidade. "Se todos me criticam, estou certo" é a régua que utilizam para medir a sua falácia travestida de verdade.

 

As consequências dessa terrível doença social são altamente danosas, e os seus sintomas já começam a ser sentidos. Um desses sintomas marcou com tristeza o primeiro dia do ano, principalmente para a comunidade surda brasileira. A velha imprensa, adoecida por inúmeras anomalias auditivas, foi acometida por mais uma grave deformação auricular, ao tapar os ouvidos e congelar todos os sentidos para a truculenta medida tomada pelos novos gestores do Brasil (contém ironia), por meio do decreto nº 11.342, que apresenta a nova estrutura do ministério da educação. Pelas novas normas regulamentares, foi extinta a Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos (DIPEBS), responsável pela educação bilíngue de surdos como modalidade na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), duas importantes conquistas alcançadas no governo Bolsonaro, ambas respeitando as especificidades linguísticas e culturais dessa importante parcela da sociedade, após anos de lutas da comunidade surda por uma educação bilíngue e de qualidade.

 

Bem-vindos ao desgoverno. Ou ao governo do retrocesso. Ou, se preferir, ao governo do zumbido.

 

giuseppe caonetto

 

(*) Artigo publicado originalmente no dia 10/01/2023 em site anterior, desativado.

O começo do fim

Relutei todo o meu primeiro dia de 2023 para começar este texto. Confesso que pensei em escrever apenas uma frase-síntese, do tipo “o amor venceu“. A ironia, contudo, não condiz com meu espírito destroçado. Por isso, optei por discorrer sobre uma das imagens produzidas neste dia tenebroso, cujo autor desconheço, vez que reproduzida por inúmeras pessoas, em suas redes sociais. Eu a escolhi pelo simbolismo dos acontecimentos deste importante dia.

 

Hoje é um dia que entra para as histórias nacionais. Sim, as histórias, nas suas múltiplas versões. No futuro, não saberemos se prevalecerá a narrativa contada pela rede globo de televisão no seu fantástico show da vida (não resisti esta ironia) ou se os acontecimentos dos últimos cinco anos serão restituídos a seu dono (povo) na sua completude.

 

Não se pode ignorar que a história é feita de interpretações. No entanto, ao intérprete dos fatos é concedida a licença para aproximar-se da verdade, regra cada vez menos observada pelo jornalismo profissional, morto há décadas, conforme afirmado pelo comentarista político Paulo Figueiredo, mas que ainda nos assombra com suas manchetes produzidas nas redações avermelhadas da velha imprensa.

 

O que pretendo neste espaço é manter o registro (enquanto me for permitido pelas supremas instâncias do xandaquistão) dos fatos que presenciei e, principalmente, dos que doravante testemunharei, com o atento olhar de um cidadão patriota.

 

Para começar, uma imagem de ilustres cidadãos (desculpe, não resisto às ironias)  sustentando uma faixa produzida pelo partido comunista brasileiro, na companhia de outras siglas desimportantes, em que se lê: “RUMO AO SOCIALISMO!”

 

Lembrei-me que, durante a campanha, num posto de combustível, na hora de pagar a conta, por não haver outros clientes, troquei ideias com a atendente, que me revelou sua preferência dentre os candidatos. Quis saber dela as razões pelas quais votaria no candidato petista. Fiz algumas argumentações contrárias e, sem que ela me perguntasse, disse-lhe que o motivo principal de meu posicionamento político era a luta contra o socialismo. Lembro-me dela com seu olhar de espanto tentando me dizer que “não há a menor chance do Brasil ser comunista, que tanto o candidato quanto os partidos são democráticos, querem apenas restaurar a democracia interrompida pelo governo desse...” Bem, vocês já sabem como todos os fazedores de “L” terminam esta frase.

 

Espero que ela esteja certa, que a chance de haver uma ditadura socialista esteja distante. Ou melhor, que esta possibilidade seja não apenas recusada, mas impedida pela brava gente brasileira. Mas temo que a atendente do posto de gasolina ajudou, com seu voto (certamente computado pelas maquininhas mágicas), a colocar o país na direção de um abismo profundo.

 

Saberemos em breve.

 

giuseppe caonetto

 

(*) Artigo publicado originalmente no dia 01/01/2023 em site anterior, desativado.


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