O Brasil está tinindo

  10/01/2023

Compartilhe:              


Há muitos anos eu convivo com um problema que afeta milhões de pessoas: o zumbido, também denominado tinido (tinnitus, que deriva da palavra latina tinnire) ou, na literatura médica, acufeno. Definido como uma ilusão auditiva, é uma sensação sonora não estimulada por fonte externa. Estima-se que entre quinze a vinte por cento da população mundial desenvolve algum tipo de zumbido. Estudos mais recentes apontam que 740 milhões de pessoas no mundo são diagnosticadas com zumbido, e no Brasil aproximadamente 28 milhões são portadoras de algum tipo de patologia causadora de acufeno.

 

As causas do zumbido são inúmeras, dentre as quais o estresse emocional, tão presente no cotidiano dos brasileiros. Mas a principal causa do zumbido, capaz de criar “sons que não existem”, é a perda auditiva, que priva as pessoas de ouvir sons importantes do dia a dia.

 

Eu não sei a causa de meu zumbido, mas creio que o tinido que “ouço” decorra da perda de audição. Estima-se que esta seja a causa em noventa por cento dos casos. Quando o descobri, após passar horas percorrendo os cômodos da casa para encontrar o grilo estridente, fui ao médico. Após exames, foi-me dito que estava com uma pequena diminuição na audição. Depois de quase vinte anos, creio que esta perda auditiva tenha se acentuado. Há alguns meses, por exemplo, durante tratamento médico, ao utilizar o termômetro não conseguia ouvir o apito que o aparelho emite para sinalizar que a medição está completa.

 

Ouvir é um dom maravilhoso, e a sensação de estar perdendo a audição não é boa, obviamente. Nas últimas semanas, em decorrência de alto estresse motivado pela inacreditável (e inauditável) proclamação do resultado eleitoral, o tinido que me atormenta aumentou muito, digamos que na proporção inversa à credibilidade dos togados supremos. Um incômodo a mais neste período turbulento da vida nacional.

 

Isto me fez refletir a respeito da deficiência auditiva, não de quem sofre com zumbido, como no meu caso, mas de quem não pode ouvir um “eu te amo” da namorada, ou sua mãe pronunciando o seu nome, ou mesmo uma bronca do pai, a risada de seu amigo, o grito de gol de seu time. Não consigo mensurar o que é, ou a sensação que causa em quem, observando o movimento dos lábios, vê que todos à sua volta se comunicam por sons e precisa aguardar alguém traduzir por sinais o que não consegue compreender apenas pela leitura labial. Estou aqui especulando um sentimento que não conheço, e talvez nunca saiba, ainda que a sensação de não ouvir o sinal sonoro do termômetro tenha me deixado angustiado.

 

Mas é possível refletir um pouco mais. Há incômodos piores. É possível observar que a perda da audição tem uma variante pandêmica que atinge muito mais que os 28 milhões de pessoas com “abelhinhas no ouvido”. Alguns convivem com cigarras. Trata-se de uma variante destruidora, pois aniquila não apenas a capacidade de ouvir, mas principalmente de pensar de forma racional e lógica. Pior que isso, trata-se de uma variante pandêmica com a capacidade de atingir a visão e tornar o portador da anomalia em alguém com relevante diminuição de sua capacidade de enxergar a realidade, o que o faz adepto do “bonnerismo”, corrente jornalística brasileira definida como imparcial na medida do alcance de sua parcialidade. "Se todos me criticam, estou certo" é a régua que utilizam para medir a sua falácia travestida de verdade.

 

As consequências dessa terrível doença social são altamente danosas, e os seus sintomas já começam a ser sentidos. Um desses sintomas marcou com tristeza o primeiro dia do ano, principalmente para a comunidade surda brasileira. A velha imprensa, adoecida por inúmeras anomalias auditivas, foi acometida por mais uma grave deformação auricular, ao tapar os ouvidos e congelar todos os sentidos para a truculenta medida tomada pelos novos gestores do Brasil (contém ironia), por meio do decreto nº 11.342, que apresenta a nova estrutura do ministério da educação. Pelas novas normas regulamentares, foi extinta a Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos (DIPEBS), responsável pela educação bilíngue de surdos como modalidade na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), duas importantes conquistas alcançadas no governo Bolsonaro, ambas respeitando as especificidades linguísticas e culturais dessa importante parcela da sociedade, após anos de lutas da comunidade surda por uma educação bilíngue e de qualidade.

 

Bem-vindos ao desgoverno. Ou ao governo do retrocesso. Ou, se preferir, ao governo do zumbido.

 

giuseppe caonetto

 

(*) Artigo publicado originalmente no dia 10/01/2023 em site anterior, desativado.


Leia mais:

Poemas Crônicas Micronarrativas Contos Opinião Publicações

Newsletter

Inscreva-se para receber as novidades.

(Os dados serão utilizados apenas para envio de conteúdos publicados neste site , nos termos da Lei nº 13.709/2018 (LGPD) e a inscrição poderá ser cancelada a qualquer momento.)

Este site utiliza cookies próprios e de terceiros para analisar sua navegação e oferecer um serviço mais personalizado e publicidade conforme seus interesses.   Termos de Uso/Cookies | Política de Privacidade