Percorrendo a velha mídia, deparei-me com artigo publicado pela Veja no dia 26 de novembro de 2023 e assinado por Valmir Moratelli em que o jornalista aborda os pontos positivos e negativos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada de 22 a 26 deste mês na histórica cidade fluminense.
Detive-me em três pontos.
No primeiro, o autor da matéria considera positiva a presença, em alta nas casas culturais, tanto na programação oficial quanto na paralela, da “poesia militante”, e cita as batalhas de slam como exemplo. Em outro artigo publicado dois dias antes no site da mesma revista, o mesmo jornalista destaca o aumento da quantidade de poetas na festa literária, de forma quase celebrativa (“A poesia nunca esteve tão em alta”, afirmou), e aponta como causa desse “boom” da poesia a militância engajada dos autores, e advoga em favor do espaço para a “poesia política”, afirmando ser cabível “num mundo de turbulências como o atual, em que crises econômicas, políticas, climáticas e sociais se tornam assunto, não só de mesa de bar, como também da busca por saídas e soluções práticas para as angústias cotidianas”.
Os outros dois pontos foram apontados como negativos. Inicialmente, o jornalista demonstra seu incômodo com o esvaziamento dos debates realizados ao longo da programação e recomenda uma análise dos motivos, sugerindo que os organizadores façam uma revisão sobre “o que tem atraído e afastado o público”. No artigo são citados, como exemplo, os debates realizados nos dias 23 e 24 (quinta e sexta-feira), o primeiro com abordagens sobre “os impactos dos clássicos na produção contemporânea”, entre o cubano Marcial Gala e a paulista Luiza Romão; e o segundo sobre “a força do feminismo e a questão do pertencimento na poesia contemporânea”, entre Dionne Brand, de Trinidad e Tobago, e a gaúcha Angélica Freitas.
Na sequência, Moratelli destaca a diminuta participação de autores idosos no evento, motivada pela opção dos organizadores em priorizar a nova geração que, no cenário literário, ainda tem pouca badalação, e novamente recomenda que a questão seja discutida “no momento que a Flip se abre cada vez mais para grupos antes invisibilizados, como de negros, indígenas e mulheres”.
Não é preciso ser muito inteligente para perceber os motivos pelos quais a edição 2023 da Flip foi um fracasso de público nos eventos que, em tese, seriam os mais relevantes da festa literária, quais sejam, aqueles realizados com a presença de convidados internacionais. Um cérebro com dois neurônios bastam para detectar a evidente relação entre os pontos negativos levantados na matéria da Veja com aquele que o jornalista aponta como positivo.
Ora, celebrar o “boom” da poesia pelo aumento de personagens militantes – aí considerados os convidados para os debates, a exemplo das brasileiras Tatiana Pequeno, Luiza Romão e Angélica Freitas, e dos internacionais Marcial Gala e Dionne Brand, já mencionados, e Laura Wittner, da Argentina – e esperar que o público demonstre interesse pelos impactos das obras clássicas na produção contemporânea é querer demais. Sequer temas retirados da cartilha militante, a exemplo do feminismo, tem força de atrair público, por uma simples razão: as narrativas apresentadas pelos autores ditos engajados, em especial as autoras mencionadas, se chocam com a dura realidade: o público de esquerda, cuja ideologia não apenas predomina mas é dominante na festa literária de Paraty, não conhece os clássicos e pouco se interessa pelo discurso maçante e repetitivo, sem novidades, dos autores políticos.
O que afirmo pode ser facilmente observado pela leitura, mesmo superficial, das matérias veiculadas pelas mídias tradicionais, que não conseguiram esconder o fracasso, mesmo com todo o empenho de fazer parecer irrelevantes os pontos negativos.
Por exemplo, em matéria de 270 palavras veiculada em O Globo, de 27 de novembro, foi dito que “mediadores não conseguiram guiar autores para uma conversa compreensível e de interesse do público mais amplo”. Ainda que o referido jornal não goze da credibilidade de outrora, há que se prestigiar a informação, vez que assinada por cinco jornalistas, integrantes da equipe destacada para cobertura do evento.
Neste ponto, imperativas e necessárias as seguintes perguntas: Os mediadores, fruto da cartilha militante, não estavam à autora dos autores? Ou o público, de viés ideológico, mostrou-se de fato desinteressado, seja pela falta de capacidade de compreensão, em razão de sua má formação escolar, ou pela abordagem repetitiva das narrativas? Com o leitor, as respostas.
Para não deixar de registrar, no final da matéria veiculada no panfleto O Globo os autores confirmam que “o Auditório da Matriz estava mais vazio do que de costume”.
A questão central é: qual o espaço que a Flip daria a autores como Flavio Gordon? Estaria entre os seus convidados? Afinal, num “mundo de turbulências”, como apontou Moratelli, provocadas por “crises econômicas, políticas, climáticas e sociais”, não estaria Gordon apto a debater a “busca por saídas e soluções práticas para as angústias cotidianas”?
Certamente Gordon, jornalista, tradutor e escritor, carioca nascido em 1979, doutor em antropologia social e autor de diversas obras, sequer seria cogitado para participar da Flip ou de qualquer outro evento literário similar, pelo simples fato de ser conservador e crítico do socialismo e do globalismo.
Portanto, por mais que os órgãos da mídia tradicional, por não conseguirem mais esconder os fatos, já começam a levantar questões acerca do esvaziamento dos eventos programados (bem provável que em razão do prejuízo financeiro, haja vista que o evento conta com inúmeros patrocínios), não consigo vislumbrar, ante os acontecimentos atuais na esfera do poder da república, crescimento qualitativo das atuais festas literárias, seja de Paraty ou de qualquer outra cidade. Elas foram pensadas para isso mesmo: ser ponto de encontro da militância e seus asseclas, ainda que estes estejam interessados mais no lazer que há no entorno que propriamente na diminuta cultura prevista na programação.
giuseppe caonetto
Quando li pela primeira vez “No meio do caminho”, vi nos versos drummondianos uma profecia a se cumprir. Interpretação, claro, de um jovem recém-apresentado à Poesia. Com o tempo, mais de quarenta anos depois, retorno à leitura do famoso poema numa tentativa de melhor compreender a história brasileira e, principalmente, os acontecimentos do momento.
Escrito em 1924 e publicado pela primeira vez em julho de 1928, o poema integrou Alguma Poesia, livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), e se tornou o ponto de partida para uma revolução literária, um marco da poesia pós-modernista brasileira. Quando o escreveu, certamente Drummond sequer poderia imaginar que o poema, simples como a própria pedra, viesse a ocupar o espaço referencial que alcançou.
Antes de sua publicação, Mário de Andrade, em carta dirigida ao poeta mineiro em 1925, justificou a decisão de não enviar o poema aos diretores da Estética (revista lançada no Rio de janeiro com o objetivo de divulgar as ideias do movimento modernista) por “medo de que ninguém goste dele”, ainda que, noutra carta, tenha-o considerado formidável.
Após inúmeras reações adversas, inclusive chacotas, o poema tornou-se, em algumas décadas, o mais discutido do modernismo literário brasileiro, o mais parodiado e interpretado, tanto por intelectuais como por pessoas simples.
Em 1967, próximo do quadragésimo aniversário da publicação do poema, Drummond lançou o livro Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema, reunindo a fortuna crítica de seu mais célebre poema, que ganhou nova edição em 2010, publicado pelo Instituto Moreira Salles, ampliada com textos, charges e ilustrações posteriores, a respeito do poema.
Como sabemos, Drummond era comunista, ainda que seus biógrafos insistam em apresentá-lo como um apartidário político. No entanto, há registros históricos de que fora lançado como candidato a deputado pelo partido comunista, em 1945, embora em seu diário tenha anotado a recusa do convite recebido. Sobre o tema, em 13 de março de 2013 o jornalista Marcelo Bortoloti publicou relevante artigo no blog do Instituto Moreira Salles. Segundo o jornalista, em 1945 o poeta começou a usar gírias de esquerda após ter encomendado, através de um amigo, o livro O capital, de Karl Marx[1].
Naquele conturbado momento da política nacional, já afastado do governo de Getúlio, onde ocupava a chefia de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação, Drummond fez uma visita ao líder comunista Luiz Carlos Prestes, na prisão, no dia 14 de março de 1945. Prestes, preso em 1936 por liderar a intentona comunista ocorrida em novembro de 1935, fez-lhe um convite para atuar como codiretor da Tribuna Popular, diário do partido, cargo que ocupou por poucos meses, afastando-se por discordar da orientação do jornal.
Embora Prestes e Drummond tivessem um pelo outro inegável admiração, isto não evitou que houvesse críticas mútuas após essa aproximação. Prestes, que esteve preso por nove anos, atribuiu a Drummond a pecha de servidor público burocrático, sem espírito militante. O poeta, por sua vez, atribuiu sua saída do jornal comunista à defesa de sua liberdade de dizer o que quer no momento que lhe apraz, e não quando outros querem ou determinam. Mas não é só isso. Bortoloti, em seu artigo, observa que a visita do poeta ao líder comunista preso o fez enxergar o terreno pantanoso da política, por ouvir de Prestes considerações sobre uma possível conciliação com o ditador Getúlio Vargas – que Drummond desejava combater[2] –, fato que se confirmou. Anistiado em 1945 por Vargas, Prestes o apoiou na eleição presidencial de 1950.
As informações acerca do posicionamento político do poeta não eram de meu conhecimento quando, pela primeira vez, repeti à exaustão que “no meio do caminho tinha uma pedra”.
Assim como a outros jovens aspirantes a poeta, aquele poema me pegou. Talvez influenciado pelas leituras bíblicas, a minha percepção (que cheguei a considerar pueril) era de um texto poético profético, já que no lugar da pedra poderia ser qualquer coisa. Seria a pedra o modernismo no caminho parnasiano? Faz sentido, se interpretarmos a pedra como fundamento dos novos conceitos a sepultar aqueles até então entranhados na poesia parnasiana. Há teóricos, no entanto, cuja interpretação é inversa, que afirmam ser o parnasianismo a pedra no meio do caminho, a impedir o avanço e desenvolvimento de uma arte inovadora, inaugurada pelo movimento modernista. O próprio poeta, em “Consideração do poema”, publicado no livro A Rosa do Povo (1945), diz não haver importância se no meio do caminho há uma pedra ou um rastro[3].
Na minha mente juvenil, no entanto, incomodava a existência de uma pedra a criar obstáculos pela simples razão de ser pedra.
Mas a vida é assim. Há certos obstáculos que se apresentam sem outra razão de ser: surgem apenas para serem obstáculos mesmo. Afinal, qual a finalidade do mal diante do bem, senão a de ser o obstáculo? Neste sentido, Santo Tomás de Aquino ensina que o mal não têm essência, não subsiste por si mesmo, posto que se define como a privação do bem, ou a ausência da essência do bem. Noutros termos, o mal não é ser, mas a privação do ser. Portanto, não tem propriamente natureza[4].
A metáfora utilizada por Drummond está muito além de ser apenas uma crítica ao parnasianismo. A leitura que faço do poema está na direção contrária dos críticos literários, cuja visão nebulosa não consegue enxergar além da própria pedra, um obstáculo para suas retinas fatigadas.
Seria ousadia afirmar que “No meio do caminho” é um dos mais políticos textos da poesia brasileira? Longe de significar tão somente a crítica ao antes ou a resiliência de quem não se atém diante do obstáculo, o poema drummondiano sugere a utilização da pedra como meio de luta, no sentido de se criar obstáculos aos propósitos, sejam quais forem.
No aspecto poético-literário-cultural, a pedra de Drummond pode ser entendida tanto como o movimento parnasiano, resistente às propostas inovadoras do movimento modernista, como o próprio movimento modernista, disposto a superar os valores considerados ultrapassados do parnasianismo e das escolas que o precederam. Aliás, a construção do poema a partir do título do soneto “Nel mezzo del camin...”, de Olavo Bilac, confirma esta última hipótese.
Na seara política, que envolve a vida de cada brasileiro, a observação de que a pedra que havia pode ser, na verdade, a pedra que ainda está no meio do caminho, resistente às inúmeras tentativas de remoção, não é uma hipótese desprezível, mas palpável.
Não é demais lembrar que no ano de 1924, quando o poema foi composto, no dia 28 de outubro teve origem a Coluna Prestes, originada pelos levantes tenentistas, sob a liderança do comunista Luiz Carlos Prestes. A Coluna Prestes, composta de mil e quinhentos homens, em dois anos e meio percorreu cerca de 25 mil quilômetros, através de treze estados, e tinha como principal bandeira “acabar com a miséria e a injustiça social no Brasil”, discurso ainda em voga pelos comunistas que, em 2022, tomaram o poder com a ajuda dos supremos órgãos judicantes da nossa combalida República e a especial conivência da mídia tradicional.
Como já informado, a primeira publicação do poema ocorreu em julho de 1928, e em 1930 integrou Alguma Poesia. Nesse período a República era presidida por Washington Luís, eleito com 99,7% dos votos válidos, de acordo com os números oficiais. A poucos dias do término do mandato, em 24 de outubro de 1930, foi deposto pela Revolução Liberal (liderada por Getúlio Vargas, candidato derrotado nas eleições daquele ano), preso e exilado por dezessete anos.
Um dos atos de Washington Luís, que o fez perder popularidade e deu origem a novos focos de insatisfações políticas — além de recuar da promessa transmitida por mensagem presidencial quanto à libertação dos presos políticos e à concessão de anistia aos participantes dos levantes nos anos anteriores (1922 a 1925) —, foi o endurecimento da Lei de Imprensa e a edição da "Lei Celerada", por meio do Decreto nº 5.221, de 12/08/1927, que impôs limites à atuação da oposição (de esquerda) e restringiu direitos de manifestação, além de novamente jogar na ilegalidade o partido comunista brasileiro (PCB), cuja legalidade havia sido reconhecida no dia 1º de janeiro daquele ano[5].
Todo este movimento político ocorrido na década de 1920 não foi interrompido com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Longe disso. No início da década de 1930, integrantes dos levantes tenentistas que deram suporte à ascensão do getulismo ao poder, insatisfeitos com a aproximação entre o governo e os grupos oligárquicos que haviam sido afastados com a queda de Washington Luís, uniram-se a comunistas, socialistas anarquistas, operários e “intelectuais” de esquerda, com o apoio do clandestino partido comunista brasileiro, para formarem pequenas frentes oposicionistas, com a narrativa de que deveriam combater o fascismo (vejam só!).
Nessa época, Luiz Carlos Prestes, pela formação militar, era um nacionalista sem uma base teórica consistente. Iniciou estudos marxistas durante o ano de 1929, na Bolívia, para onde se transferiu no final de 1928, após o fracasso da Coluna Prestes. Depois, transferiu-se para a Argentina, onde exerceu atividades como engenheiro e aprofundou os estudos no marxismo. O líder comunista tinha consciência da necessidade de se aprofundar nas teorias marxistas, tanto que, ao ser cogitado como candidato nas eleições presidenciais de 1930, recusou o convite, diluindo assim a pretensa aliança com o partido comunista brasileiro, tendo como consequência imediata a desfiliação partidária de muitos comunistas, que decidiram aderir ao “prestismo”, ou seja, à liderança de Prestes. Curioso observar que, no mês de maio daquele ano, Prestes divulgou manifesto de adesão ao comunismo para, no ano seguinte, mudar-se para a União Soviética a fim de se dedicar aos estudos marxistas-leninistas, somente se filiando ao partido comunista em agosto de 1934, quatro meses antes de voltar clandestinamente ao Brasil.
No período em que Prestes estava fora do país, aqueles grupos oposicionistas formados nos primeiros anos da década de 1930 mantiveram o discurso antifascismo contra o governo de Getúlio e, encorpados, deram origem à Aliança Nacional Libertadora (ANL), criada durante o segundo semestre de 1934 e manifestada publicamente em janeiro de 1935, tendo como pontos principais em seu programa: a nacionalização de empresas estrangeiras, a reforma agrária e a constituição de um governo popular, ou seja, comunista. Embora também constasse do programa a garantia de amplas liberdades democráticas, sabemos o que isto significa em programas de organizações socialistas, que atuam com sua principal arma teórica: o marxismo.
Estava, assim, desenhado o panorama político para a derrubada do governo, que foi tentada pelo movimento tenentista deflagrado nos dias 23 a 27 de novembro de 1935, por meio de levantes militares ocorridos em Natal, Recife e Rio de Janeiro, em nome da Aliança Nacional Libertadora e sob a liderança de Luiz Carlos Prestes, capitão do exército.
O movimento fracassou por alguns motivos, dentre os quais a falta de apoio popular e a avaliação superestimada de Prestes quanto ao seu prestígio no exército. O movimento, facilmente reprimido e derrotado pelas forças legalistas, foi totalmente desmoralizado, sendo conhecido nas fileiras militares como a “intentona” (louco intento) comunista.
A pergunta que se faz, a partir da leitura do poema de Drummond, é se a pedra, no caso, se refere a todo este movimento comunista revolucionário que está sempre a criar obstáculo ao desenvolvimento dos valores defendidos pelos conservadores e liberais, ou se a pedra é metáfora para os valores e movimentos contrários aos intentos revolucionários dos vassalos ideológicos de Lênin.
Iniciei este artigo de opinião dizendo que via nos versos drummondianos uma profecia a se cumprir. No caso, a profecia se refere à existência da pedra, que sempre estará lá, seja qual for a sua representação. A tradução da linguagem metafórica do poema para compreensão da realidade dependerá do leitor.
No meu caso, penso que a indicação do comunista Flavio Dino para a vaga de ministro do supremo tribunal federal, neste 27 de novembro, não é acaso ou mera coincidência, mas uma data especialmente escolhida pelo ocupante da cadeira presidencial, como marco da retomada da “intentona” de 1935. O ex-presidiário elevado à condição de presidente da república aposta alto na comunização do Brasil e está disposto a pagar o preço.
Em 1935 pararam o capitão comunista. Como já observado, Prestes não apenas superestimou o seu prestígio junto às forças armadas como subestimou o poder de reação das forças leais ao governo, que rapidamente impôs a rendição dos revoltosos da Escola de Aviação Militar que iniciaram um levante às três horas da manhã do dia 27 de novembro, controlado em poucas horas, no amanhecer do mesmo dia, ante a rápida intervenção das tropas legalistas provenientes da Vila Militar.
Desta vez, o Capitão patriota foi parado pelos supremos tupiniquins, que sequer tentaram disfarçar seu ativismo e sua índole autoritária, cujas ações, muitas contrárias à lei e à Constituição, contaram com a inestimável ajuda dos órgãos de imprensa tradicional, reunidos em consórcio, e o respaldo do generalato, o que não deixa também de revelar a existência de uma avaliação superestimada feita pelo Presidente Jair Messias Bolsonaro a respeito de seu prestígio junto às forças armadas, e uma avaliação subestimada quanto ao caráter (ou sua ausência) dos seus inimigos políticos e de aliados de ocasião.
Resta agora saber, nos caminhos tortuosos da política brasileira, quem tropeçará na pedra de quem para cumprimento da profecia drummondiana: a existência da pedra é perene e, em última análise, nos governa.
giuseppe caonetto
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[1] Drummond e o Partido Comunista, disponível em: https://blogdoims.com.br/drummond-e-o-partido-comunista-por-marcelo-bortoloti/
[2] Drummond e o Partido Comunista, op. cit.
[3] Uma pedra no meio do caminho / ou apenas um rastro, não importa. ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2002.
[4] TOMÁS DE AQUINO. Os demônios - Sobre o mal | Questão 16. Campinas: Ecclesiae, 2022.
[5] 1ª República (15.11.1889 - 16.07.1934). Portal da Câmara dos Deputados. Acessível em:
https://www2.camara.leg.br/a-camara/conheca/historia/Ex_presidentesCD_Republica/republica1.html
Quando Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) formulou as primeiras definições conceituais de res publica, ele trouxe para o enunciado argumentos de legitimidade. Ou seja, Cícero estabelece critérios além da concepção de governante bom ou ruim, de forma a classificá-lo como legítimo ou ilegítimo a partir de princípios fundamentais obrigatórios norteadores da justiça, da segurança, do direito, dentre outros valores comuns ao povo governado.
Para melhor discorrermos a respeito, importante termos em mente a definição ciceroniana apresentada em De Re Publica, obra composta por seis livros e escrita entre 54 e 51 a.C., que se perdeu por volta do século VI e chegou ao nosso tempo de forma fragmentária, após sua descoberta na Biblioteca do Vaticano em 1819. No Livro I, nº 39, define Cícero:
"A coisa pública [res publica] é a coisa do povo [res populi]. E o povo não é um agrupamento de homens congregados de qualquer modo, mas a congregação de uma multidão associada [sociatus] por um consenso jurídico [iuris consensus] e uma utilidade comum [utilitatis communione]. E a primeira causa para se agruparem não é tanto a fraqueza quanto uma tendência natural dos homens de se congregarem"[1].
Não é difícil observar no conceito a presença do povo como elemento principal da definição de república, não como um mero aglomerado, mas de um numeroso conjunto de pessoas unidas ou associadas pela livre adesão a dois critérios fundamentais, consensuais e vinculantes: o jurídico, ou o direito propriamente dito (consensus juris), e o bem comum, ou a comum utilidade (communis utilitatis). De forma simplificada: o que é do povo é público.
Em Cícero o consensus juris se refere a uma vontade comum de justiça, sem a qual não há vida em comum. É um consenso quanto ao que é justo, ou fruto da justiça, assim considerada aquela derivada da natureza. É o consenso de justiça que, em última análise, dirige a vida em sociedade. Mas não é possível uma plena compreensão do conceito ciceroniano de justiça se não entendermos o conceito de communis utilitatis, posto que, segundo Cícero, são dois os fundamentos da justiça: assegurar os direitos individuais, não permitindo a ninguém qualquer tipo de lesão; e assegurar os interesses da coletividade por meio de regras a salvaguardar a utilidade comum[2].
A partir desse conceito surge a noção de Estado, órgão deliberativo criado pelo povo para exercer o poder de gerir os consensos fundamentais, zelando pelos valores que correspondem ao bem comum, assim como pelo cumprimento das regras estabelecidas para dar proteção a tais valores.
Junto com a criação do Estado surge também o conceito de autoridade, que é a pessoa ou o conjunto de pessoas com autorização conferida pelo povo para, em seu nome, estabelecer as condições jurídicas consensuais e zelar pelo seu cumprimento e a sua aplicação.
Para que esse sistema de governança da coisa pública funcione, Cícero estabelece como parâmetro a liberdade, tanto de quem governa quanto dos governados, de forma que, na ausência da liberdade política, haveria o colapso da justiça, e na ausência da liberdade do povo, em especial a de contestar e de apelar, a res publica seria usurpada e o Estado não seria mais que um regime tirânico.
O conceito de liberdade ciceroniano parece se referir à capacidade do povo de resistir aos anseios hostis e tiranos daqueles que sonham com o exercício pleno do poder sustentado pelo pensamento único, sem possibilidade de contestação. Não por acaso ele nos ensina que “nada pode ser mais doce do que a liberdade que, se não for equânime, sequer é liberdade”[3]. Observa-se no conceito de liberdade de Cícero uma relação sinonímica de equanimidade, o que nos leva a pensar na existência do Estado sempre com o mesmo exercício de liberdade do povo, jamais o povo sem a liberdade exercida pelo Estado.
A obra de Cícero é, certamente, uma das maiores referências filosóficas para a defesa da liberdade como fundamento do Estado de Direito.
No entanto, como sabemos, Cícero foi derrotado. Registros históricos confirmam sua morte violenta por ordem do Segundo Triunvirato, estabelecido em 43 a.C. por acordo firmado entre Marco Antônio, Lépido e Otávio, filho adotivo do ditador Júlio César.
Com a morte de Cícero, a República Romana, iniciada com a queda da monarquia em 509 a.C., depois de quase cinco séculos se desintegrou, ruiu. Mas não apenas por isso. O fim da aliança política, com duração aproximada de dezesseis anos de um governo compartilhado, deixou pavimentado o caminho para que Otávio (ou Otaviano), herdeiro de Júlio César, assumisse sozinho o poder, tornando-se o Imperador Augusto e inaugurando, assim, o Império Romano, a partir do ano 27 a.C.
Entretanto, a filosofia ciceroniana continuou a ecoar, tanto que, em sua biografia, seus inimigos políticos e algozes são retratados como tiranos e usurpadores da liberdade. Por evidência, os grupos políticos capitaneados tanto pelo ditador Júlio César quanto pelos integrantes da aliança política que assumiu o poder após sua morte e, em especial, pelos onze primeiros imperadores do Império Romano, conforme biografados por Suetônio[4] (Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano), não tinham apreço algum pela liberdade defendida por Cícero.
Segundo Suetônio, Júlio César teria dito que “res publica é nada, um mero nome sem corpo ou forma”[5]. Sem dúvida que, pelos conceitos adotados na sua obra, Cícero se opôs visceralmente a esta frase, própria de governantes ditadores sedentos de poder que, para obter sucesso no seu intento usurpador, estimulam o desequilíbrio constitucional e apostam na falta de estabilidade como estratégia de perpetuação.
Júlio César e Cícero, duas personalidades históricas e distintas, com contradições acentuadas, estão no centro da mudança histórica de Roma, mas de forma profundamente antagônica.
Para Cícero, um cidadão de Roma, descrever sua pátria como nihil, como o fez Júlio César, soa como insulto (e de fato é), não apenas a ele, combativo defensor da res publica, mas em especial àquele que dá forma e corpo à república romana: o povo, seu dono.
Revisitar a história antiga de Roma, especialmente a que abrange o fim da Res Publica e o início do Império Romano, nos permite compreender melhor o momento atual da República Federativa do Brasil, que caminha a passos largos para se tornar um império comunista ou, na melhor das hipóteses, um arremedo de democracia socialista em que o povo não se manifesta livremente, mas apenas de forma consentida, a exemplo do que já ocorre em diversos países.
Este texto, como se vê, tem caráter introdutório para o que se pretende escrever e publicar neste site sobre política, de forma que as opiniões do autor estejam amparadas histórica e filosoficamente.
Neste artigo de estreia, importante ressaltar que este autor comunga do pensamento ciceroniano quanto ao conceito de liberdade política, no qual transparece ou ressurge, de forma cristalina, o pensamento estoico quanto ao conceito de liberdade propriamente dita, considerada como uma capacidade de agir em conformidade com a natureza.
Assim, com suporte nessas premissas, semanalmente este site receberá novos textos em que serão abordados os elementos constitutivos da história de nossa nação brasileira, com único objetivo de auxiliar na compreensão da formação política de nosso povo.
giuseppe caonetto
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[1] CÍCERO, Marco Túlio. De Re Publica. 54-51 a.C., I, 39. Apud LOPES, Ana Rita. Cícero, Tratado da República, Cultura [Online], vol. 30, 2012. Acessado em 15 novembro 2023. URL: https://journals.openedition.org/cultura/1741; DOI: https://doi.org/10.4000/cultura.1741
[2] CÍCERO. De Officiis, I, 20-27.
[3] Quae si aequa non est ne libertas quidem est. CÍCERO. De Re Publica, I, 47.
[4] SUETÔNIO. A Vida dos Doze Césares. São Paulo: Martin Claret, 2004.
[5] Nihil esse rem publicam, appellationem modo sine corpore ac specie. SUETÔNIO. op. cit., Divus Iulius, 77.
Hoje é o Dia Nacional da Poesia. Não porque os poetas desejaram, mas porque os não-poetas assim decidiram. Está na lei. Não sei por quê. A mim, como cidadão, resta-me cumprir a lei. Mas o poeta que me habita me desautoriza qualquer inclinação às letras frias publicadas em 2015 no diário oficial.
Há quem comemora no dia 14 de março. Dia do nascimento de Castro Alves.
“Ah, mas a nova data foi escolhida em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade”, retrucam um ou dois.
Vamos, pois, editar novas leis em homenagem às datas de nascimento de Cora Coralina, Vinicius de Moraes, Cláudio Manuel da Costa, Adélia Prado, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Manoel de Barros, Lêdo Ivo, Casimiro de Abreu, Manuel Bandeira, Hilda Hilst, Machado de Assis, Ferreira Gullar, Carolina Maria de Jesus, Mario Quintana, Paulo Leminski, Cruz e Sousa, Fernanda Ribeirete, Tomás António Gonzaga, Alice Ruiz, Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, Ivan Junqueira, Raul Bopp, João Guimarães Rosa, Gregório de Matos, Haroldo de Campos, Olavo Bilac, Ariano Suassuna, Conceição Evaristo, Éder Rodrigues, Alphonsus de Guimaraens, Carlos Nejar, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Patativa do Assaré, Oswald de Andrade, Augusto de Campos, Helena Kolody, Murilo Mendes, Sérgio Rubens Sossella, Gilka Machado, dentre tantos e tantos outros.
E meu aniversário é no dia 28 de janeiro. Neste dia, se me perguntarem, manifestarei o desejo quanto à decretação do dia nacional da poesia mínima.
Afora isso, a Poesia não cabe em preceitos.
Seu único fundamento é a Liberdade.
Por isso, nesta data, este site inaugura o Milênio Nacional da Poesia.
giuseppe caonetto
Eu parei de atormentar os passarinhos no final de minha adolescência. Perseguia-os com estilingues e arapucas. A decisão foi tomada no dia que a arapuca caiu sobre a asa direita do pombo, causando-lhe fratura. A minha dor foi imensurável. Eu sempre libertava os aprisionados, após a minha molecagem. Naquele dia, isto não foi possível. Levei-o para casa e dei-lhe todos os cuidados, mas ele, fiel à causa, não quis se alimentar e, depois de alguns dias, fez seu último voo para o céu da passarinheza, em forma de pluma. Ao seu corpinho dei dignidade, sob a sombra de um pé de cedro.
A arapuca é uma espécie de armadilha cuja estrutura se assemelha a uma gaiola, fabricada com varetas ou gravetos de madeira, ou talas de bambu, colocadas em sobreposição, com as superiores em tamanho menor que as inferiores, em forma de uma pirâmide sustentada por amarração feita com fibras vegetais ou arame. Sua finalidade: aprisionar animais, principalmente pássaros, atraídos pelos alimentos colocados como isca.
Imprescindível, para seu bom funcionamento, que o disparador não falhe. Por isso, precisa ser bem construído, com a escolha certa dos gravetos, preferencialmente leves, que irão servir de base, e do ramo que servirá para a sustentação da arapuca, ligada à base. Este deve ser resistente e flexível.
Na minha atividade artesanal, consumia parte de meu tempo preparando as tiras de madeira, cortadas no tamanho ideal. Para a construção do disparador eu utilizava ramos dos cafezais. O alvo: as pombas e outros pássaros que frequentavam as roças de meu pai e de vizinhos, principalmente na época da colheita de grãos (amendoim, milho, feijão, arroz).
Para o êxito da armadilha, o segredo consistia em conhecer as preferências de cada tipo de pássaro e, assim, acertar a escolha da isca. Não adiantava, por exemplo, colocar grãos inteiros de milho para atrair pássaros pequenos. Era preferível o uso de quirera de milho ou de arroz. A preparação do ambiente também era importante, de forma que a arapuca deveria ser armada sem deixar vestígios no ambiente. Assim, após o engatilhamento, eu costumava utilizar folhas secas dos cafezais ou de outras árvores, recolhidas na mata, para camuflar as pegadas ou outras marcas que pudessem comunicar às aves os propósitos nada amigáveis da disponibilizada alimentação.
A rigor, eu travava com os pássaros uma guerra de informação e desinformação. Visando a sua captura, buscava conhecê-los e, para isso, os observava, vigiava, pesquisava, estudava. Por outro lado, quanto mais informações eu obtinha, agia de forma cada vez mais criativa e astuta, com a utilização estratégica de recursos voltados à ocultação das informações que revelassem o perigo.
Como exemplo, lembro-me que no início de minhas atividades terroristas (sim, eu era o terror dos pássaros) punha as armadilhas em lugares mais abertos, por acreditar que a ausência de obstáculos à visão dos voadores os atrairia. Com o tempo, dei-me conta de que, ao ver as horríveis cenas de aprisionamento de seus semelhantes, desesperados sob a arapuca e buscando inutilmente uma saída, a passarinhada passava a evitar aquele local, impondo-me seguidas derrotas, o que me fez mudar as estratégias, as quais não revelarei neste texto. Pode ser que algum menino o leia, e não quero contribuir para a formação dos black blocs do futuro.
O que me motivou a escrever este artigo foram os últimos acontecimentos nas terras tupiniquins, mais precisamente em Alexandrópolis, a nova capital da Banânia. Não me parece que as ocorrências resultaram de um grande plano de retomada dos poderes da república e blá blá blá, como repetidamente veiculado pelos velhos e corrompidos instrumentos do jornalismo, mas sim, de uma arapuca estrategicamente armada pelos inimigos do pombal. Os pombos, ingênuos, queriam apenas a vida em liberdade nas roças, onde encontram seu alimento, fazem suas festas, arranjam namorada, constroem ninhos.
Ao observar as imagens transmitidas por perfis nas redes sociais, principalmente aquelas que nunca serão veiculadas pelos órgãos da velha imprensa, lembrei-me de um artigo publicado pelo inigualável Percival Puggina, um dos mais lúcidos pensadores do nosso tempo, membro da Academia Rio-Grandense de Letras. No artigo publicado no dia 8 de junho de 2022 sob o título Cuidado, é arapuca!, disponível no sítio do autor na Internet, Puggina faz referência à ingênua crença (o autor a classifica acertadamente como tola) de que o Estado, por meio de suas instituições, é fonte de bondades, apenas. Nessa desinformação, diz o autor, “tantos se deixam manipular por certos detentores de poder, indivíduos que jamais seriam convidados para jantar com a família de quem os conhecesse”.
Na sequência, Puggina faz referência ao livro Pombas e Gaviões, lançado em 2010, em especial à advertência de capa: “Os ingênuos estão na cadeia alimentar dos mal-intencionados”. Aliás, a imagem da arapuca que enfeita este texto é a mesma utilizada pelo autor gaúcho para ilustrar seu belo artigo (endereço no final).
E o que liga os vícios brasileiros, em especial aquele de atacar os efeitos e não combater a causa, aos atos acontecidos no dia 8 de janeiro? As arapucas. Sim, o Brasil é o país das arapucas, uma nação onde os predadores são libertos de suas gaiolas e as pombas atraídas para armadilhas cada vez mais elaboradas, seja por meio de narrativas midiáticas, seja por meio de maquininhas mágicas feitas e mantidas em absoluto segredo.
Não adianta espancar os fatos com injúrias ou bofetadas, como escreveu Puggina em novo artigo, tratando do mesmo tema. Aliás, o novo texto, publicado neste 10 de janeiro, traz como título Os ingênuos e os mal-intencionados, em nova referência à advertência de 2010, com a qual concordo plenamente. Recomendo a leitura e indico, no final, os endereços.
É chegada a hora de a sociedade brasileira despertar e, talvez, os tempos difíceis que virão contribuam para afugentar a profunda sonolência que toma conta da consciência de significativa parcela dos brasileiros. E a reviravolta (não revolta nem revolução) dos manés somente ocorrerá com a atuação política, especialmente no ambiente em que cada um atua, com seus familiares, amigos, colegas, conhecidos. O momento é de firmar como principal estratégia política a identificação e o desarme das arapucas.
Esperemos que a nova composição do Congresso Nacional entenda o momento e dê ao povo brasileiro a oportunidade, talvez a última, de construir um futuro.
giuseppe caonetto
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(*) Artigos de Percival Puggina mencionados:
1. Cuidado, é arapuca!, de 08/06/2022, no endereço:
https://www.puggina.org/artigo/cuidado,-e-arapuca!__17603
2. Os ingênuos e os mal-intencionados, de 10/01/2023, no endereço:
https://www.puggina.org/artigo/os-ingenuos-e-os-mal-intencionados__17724
(**) Este artigo foi publicado originalmente em 16/01/2023 em antigo site do autor, e foi republicado nos seguintes sites:
1. Em 18/01/2023, no site Conservadores e liberais, administrado por Percival Puggina, no endereço:
https://www.puggina.org/outros-autores-artigo/arapucas__17907
2. Em 20/01/2023, no site do jornal Folha do Norete do MS, no endereço:
Há muitos anos eu convivo com um problema que afeta milhões de pessoas: o zumbido, também denominado tinido (tinnitus, que deriva da palavra latina tinnire) ou, na literatura médica, acufeno. Definido como uma ilusão auditiva, é uma sensação sonora não estimulada por fonte externa. Estima-se que entre quinze a vinte por cento da população mundial desenvolve algum tipo de zumbido. Estudos mais recentes apontam que 740 milhões de pessoas no mundo são diagnosticadas com zumbido, e no Brasil aproximadamente 28 milhões são portadoras de algum tipo de patologia causadora de acufeno.
As causas do zumbido são inúmeras, dentre as quais o estresse emocional, tão presente no cotidiano dos brasileiros. Mas a principal causa do zumbido, capaz de criar “sons que não existem”, é a perda auditiva, que priva as pessoas de ouvir sons importantes do dia a dia.
Eu não sei a causa de meu zumbido, mas creio que o tinido que “ouço” decorra da perda de audição. Estima-se que esta seja a causa em noventa por cento dos casos. Quando o descobri, após passar horas percorrendo os cômodos da casa para encontrar o grilo estridente, fui ao médico. Após exames, foi-me dito que estava com uma pequena diminuição na audição. Depois de quase vinte anos, creio que esta perda auditiva tenha se acentuado. Há alguns meses, por exemplo, durante tratamento médico, ao utilizar o termômetro não conseguia ouvir o apito que o aparelho emite para sinalizar que a medição está completa.
Ouvir é um dom maravilhoso, e a sensação de estar perdendo a audição não é boa, obviamente. Nas últimas semanas, em decorrência de alto estresse motivado pela inacreditável (e inauditável) proclamação do resultado eleitoral, o tinido que me atormenta aumentou muito, digamos que na proporção inversa à credibilidade dos togados supremos. Um incômodo a mais neste período turbulento da vida nacional.
Isto me fez refletir a respeito da deficiência auditiva, não de quem sofre com zumbido, como no meu caso, mas de quem não pode ouvir um “eu te amo” da namorada, ou sua mãe pronunciando o seu nome, ou mesmo uma bronca do pai, a risada de seu amigo, o grito de gol de seu time. Não consigo mensurar o que é, ou a sensação que causa em quem, observando o movimento dos lábios, vê que todos à sua volta se comunicam por sons e precisa aguardar alguém traduzir por sinais o que não consegue compreender apenas pela leitura labial. Estou aqui especulando um sentimento que não conheço, e talvez nunca saiba, ainda que a sensação de não ouvir o sinal sonoro do termômetro tenha me deixado angustiado.
Mas é possível refletir um pouco mais. Há incômodos piores. É possível observar que a perda da audição tem uma variante pandêmica que atinge muito mais que os 28 milhões de pessoas com “abelhinhas no ouvido”. Alguns convivem com cigarras. Trata-se de uma variante destruidora, pois aniquila não apenas a capacidade de ouvir, mas principalmente de pensar de forma racional e lógica. Pior que isso, trata-se de uma variante pandêmica com a capacidade de atingir a visão e tornar o portador da anomalia em alguém com relevante diminuição de sua capacidade de enxergar a realidade, o que o faz adepto do “bonnerismo”, corrente jornalística brasileira definida como imparcial na medida do alcance de sua parcialidade. "Se todos me criticam, estou certo" é a régua que utilizam para medir a sua falácia travestida de verdade.
As consequências dessa terrível doença social são altamente danosas, e os seus sintomas já começam a ser sentidos. Um desses sintomas marcou com tristeza o primeiro dia do ano, principalmente para a comunidade surda brasileira. A velha imprensa, adoecida por inúmeras anomalias auditivas, foi acometida por mais uma grave deformação auricular, ao tapar os ouvidos e congelar todos os sentidos para a truculenta medida tomada pelos novos gestores do Brasil (contém ironia), por meio do decreto nº 11.342, que apresenta a nova estrutura do ministério da educação. Pelas novas normas regulamentares, foi extinta a Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos (DIPEBS), responsável pela educação bilíngue de surdos como modalidade na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), duas importantes conquistas alcançadas no governo Bolsonaro, ambas respeitando as especificidades linguísticas e culturais dessa importante parcela da sociedade, após anos de lutas da comunidade surda por uma educação bilíngue e de qualidade.
Bem-vindos ao desgoverno. Ou ao governo do retrocesso. Ou, se preferir, ao governo do zumbido.
giuseppe caonetto
(*) Artigo publicado originalmente no dia 10/01/2023 em site anterior, desativado.
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