Quem será o Noé de nossa história?

  28/11/2025

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Mateus 24,37-44

 

Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: 37“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. 38Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. 39E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. 40Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. 41Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. 42Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor. 43Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. 44Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá”.

 

É intrigante o discurso de Jesus, dirigido a seus seguidores, a propósito da profética vinda do Filho do Homem. Neste início de novo ano litúrgico (ano A, de acordo com a liturgia católica), a celebração do primeiro domingo do Advento nos reserva uma reflexão importantíssima. Estamos caminhando para o final do ano civil e, após a época natalina, sempre marcada por esperanças, estaremos em ano eleitoral, sempre marcado por um dilúvio de narrativas.

 

Para quem estuda a história da humanidade, não se surpreende, ainda que se angustie e se indigne com as ondas torrenciais geradas no ambiente político, seja no Brasil, na américa espanhola, nos Estados Unidos da América, qualquer nação da Europa ou nos países asiáticos e africanos: onde está o homem, está também o conflito.

 

Na seara brasileira, a mentira encontra campo fértil para se alastrar e tomar conta dos cultivos, sufocando as plantações de trigo. A razão pela qual o logro ganha forma e ocupa espaços é também intrigante.

 

No momento em que faço esta reflexão, a partir da liturgia do primeiro domingo do Advento, os semeadores de cizânia celebram a decisão de líder tirânico travestido de magistrado que, corrompendo normas jurídicas, determina o encarceramento definitivo do maior líder político desta nação, para início de cumprimento da injusta pena que lhe foi atribuída por fatos inventados no curso de um processo absolutamente nulo, forjado em colaboração com os bichinhos amestrados que o ladeiam.

 

Conforme o texto do evangelho, quando o dilúvio veio e arrastou a todos, as pessoas que “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento [...] nada perceberam”.

 

E este é o ponto. O povo, quando permite que a corrupção seja a regra, abre caminho para a tirania e, uma vez estabelecido o sistema tirânico, fica sujeito a desconhecidas e imprevisíveis consequências, diluvianas, que podem arrastar a todos.

 

E como fizemos isto? Como permitimos que nossa nação tivesse este lamentável destino? Pela simples falta de vigilância. Não apenas, há muitos outros elementos a considerar. Contudo, é na aparente estabilidade que se estendem e se escondem os tentáculos da tirania que, de forma insidiosa, se estabelece e se enraíza. A sonolência do povo é que permite ao ladrão vir, já não mais à noite, mas a qualquer hora. É sempre bom lembrar que a sentença condenatória que levou à prisão o líder do maior esquema de corrupção da história brasileira foi anulada para que aquele homem, comprovadamente corrupto, voltasse à cena dos crimes, aqueles descritos nas provas processuais produzidas — confirmadas por dezenas de outras provas, dentre as quais dezenas de testemunhos e delações, inclusive com vultosas devoluções de recursos desviados — e os que agora são cometidos, como no caso dos desvios bilionários com origem em desfalques em contas de aposentadoria (sim, de valores destinados à subsistência de pessoas idosas e pobres!), que levou à prisão o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto.

 

Este é o momento mais difícil da história da nação brasileira, dividida, em conflito e entregue a um sistema corroído que, como no tempo de Noé, avança sobre as liberdades fundamentais, com decisões judiciais e políticas, preparando o terreno para um dilúvio de instabilidade democrática, enquanto muitos permanecem distraídos, em inabalável rotina. Essa normalidade, sabemos, é a vestimenta da complacência. O relato bíblico, lembrado por Jesus a seus seguidores, não nos dá informações precisas a respeito dos avisos emitidos quanto aos acontecimentos por vir. Mas, pela letargia do povo, descrita com precisão (comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento), seguramente podemos afirmar que os contemporâneos de Noé ignoravam os avisos.

 

No caso da sociedade brasileira, grande parte está imersa em redes sociais e entretenimento, não se dando conta dos sinais de erosão institucional. Os debates públicos, especialmente sobre projetos de interesse da nação, quase todos são tratados nas redações com base multifuncional, pó facial, blush, iluminador, sombra, máscara e batom, dentre outros inutensílios que compõem o kit de maquiagem jornalística, e empacotados com papéis multicoloridos e lacinhos de fita vermelha, recebidos pelo público como parte da sua refeição diária, garantida pelo governo.

 

Aqui reside o cerne da tirania. O poder tirânico somente pode ser exercido se: a) o povo permitir, seja por meio da outorga coletiva ou pela submissão silenciosa; b) as instituições que representam o povo estiverem cooptadas e, por isso, sem instrumentos para fazerem valer a vontade do povo que as conceberam; c) as forças de defesa do próprio povo, armadas, lhe derem as costas.

 

Pelos acontecimentos dos últimos anos, vemos o povo dividido em algumas frentes: a que confere outorga à tirania que se estabelece; a que trava sua luta desesperada contra o poder tirânico; e a que come e bebe enquanto os tentáculos se alongam. Esta última é a maior, em tamanho e culpa.

 

A tirania, como a que está se consolidando no país, não irrompe de golpe (na forma tradicionalmente conhecida, com a tomada repentina do poder), mas por tentáculos: censura em redes, intervenção em políticas públicas, reinterpretação extensiva das normas constitucionais e legais, usurpação da competência legislativa, dentre outros inúmeros abusos.

 

Se olharmos para o nosso tempo como se fosse o tempo de Noé, ao vermos o coração do Criador sangrando de dor, poderíamos fazer coro com o escrito bíblico para afirmar que “a maldade dos homens é grande na terra, e todos os pensamentos de seu coração estão continuamente voltados para o mal” (Gn, 6,5) e que “a terra está corrompida” (Gn 6,12).

 

O Brasil de 2025 é o tempo de Noé: distraído e à beira do abismo.

 

giuseppe caonetto

 


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